quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O SERENO

O sereno é como um choro sem vontade
É como vergonha de se ver
É preguiça de pensar
É como o medo de escrever
É água que não corre
É chuva que não cai.

Todo um século em um só volume
alinhado na perplexidade de um desvaneio
derramando em linhas a previsibilidade de um texto.

O sereno é vontade de esquecer,
fingindo não se molhar.
É como acreditar que a carne não fez mal,
Que o vinho não derramou lágrimas torpes de ressentimentos
Que o beijo não foi dado,
Que o fim não chegou para o que se amou.

Sereno é fazer da vida tua o meu tempo.
A tristeza está nos olhos, como o sinal em minha estrada.
Sereno é como roubar a verdade, que pela mentira não se apaga.
Uma encruzilhada entre a moeda da honestidade e a condenação parcelada.

O sereno só é cheio
Quando olhamos os nossos pés
e o rio que transborda abaixo deles.
Água que segue solta pela grama,
Levando terra, arrastando certezas.
Contrastando a carne dos dedos com uma natureza que não é mais nossa.
Rio da madrugada, que derrama a repulsa de uma enxurrada a gotejar no teto de meus pensamentos.

É aí que o sereno se desfaz,
É ai que ele enrruga a pele.
Se torna vivo, crepitante,
Embora venha a apodrecer, ao sabor do tempo, a carne de nossos corpos quentes.

Alexandre Farias

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