sexta-feira, 27 de março de 2009

POR UMA HISTÓRIA COMUM(Embaixador Alberto da Costa & Silva)



O meu antepassado que vivia no Maranhão, na metade do século 18, não ignorava que podia servir a seu rei em Salvador, Marvão, Luanda, Macau ou Goa. Sabia-se parte de uma comunidade que ultrapassava o que tinha por horizonte. Já nós, nos dias de hoje, mostramo-nos distraídos para o fato de ter sido o Brasil parte de um império, o que fazia com que nossas fronteiras não ficassem em nosso continente nem parassem no nosso litoral: iam, ao norte, até os Açores e o rio Minho, e a leste, até Macau.
Temos consciência de que os sucessos na Metrópole nos regiam ou afetavam e de que os acontecimentos brasileiros lá repercutiam, mas tendemos a nos concentrar naqueles momentos de aceleração, mudança ou ruptura - como o descobrimento do ouro em Minas Gerais ou a invasão napoleônica - e a descuidar do fluir do dia-a-dia.
Deixamos de ter presentes as vinculações diretas entre os demais territórios do império, que podiam ser tão intensas que o sucedido num deles influía nos outros e até lhes determinava o comportamento. Assim, ao longo dos séculos 17 e 18, os interesses do Brasil comandavam de tal modo Luanda, que era no Brasil que a Metrópole recrutava muitos dos governadores de Angola. E era de Salvador que se controlava o ritmo do comércio com o pequenino, mas importantíssimo para o Brasil, forte de São João Batista de Ajudá.
Estamos ainda à espera de que se investigue como se interinfluenciavam e entreteciam as administrações da Metrópole, da Índia portuguesa, de Angola e do Brasil, e sobre a história individual daqueles que passaram os seus dias a mudar de terras e de oceanos. Pois os homens do Brasil foram trabalhar em Moçambique e na Índia, passando antes, muitas vezes, por Lisboa, Guiné, Cabo Verde, São Tomé ou Angola. Goeses e cabo-verdianos fizeram percursos semelhantes antes de chegar ao Brasil. Ameríndios serviram como soldados em Angola. E escravos embarcados nos mais diversos pontos da África não pararam de descer, durante 300 anos, em terras brasileiras.
O quotidiano de cada um desses tratos de terra que formavam um império, distantes uns dos outros pela demora das viagens, se foi alterando, ao longo dos séculos, ao influxo do movimento livre ou forçado de pessoas, um movimento que naturalmente se acompanhava pelo de animais, plantas, objetos, formas de vida familiar e modos de comportamento na cozinha, na varanda, na sala, no quarto e na rua. Durante todo esse tempo, encostaram-se, somaram-se e até se confundiram, nas terras banhadas pelo Índico e o Atlântico, distintos modos de vida, e mudaram-se jeitos de ser, e impregnaram-se de África e de Ásia as casas portuguesa e brasileira, e de Europa e de América as moradas africanas, a tal ponto que nos esquecemos, e não só aqui mas também do outro lado do mar, de que a canja era um prato indiano, a farinha de mandioca, uma comida tupi, e de que foi na China que aprendemos a empinar papagaios de papel.
Não seria demais imaginar-se como um primeiro projeto cultural coletivo dos países de língua oficial portuguesa a história das permutas que se fizeram ao longo do grande arco que vinculava Macau a Lisboa, da qual emergiria naturalmente a história social do que foi o império lusitano. Essa história exige a multiplicidade das perspectivas. Não basta que saibamos quão diferentes foram as declarações guerra, em 1665, de D. Antônio, rei do Congo, e de André Vidal de Negreiros , chefe dos portugueses; cumpre que aprendamos a ler cada uma delas com os olhos de ambos os contendores e também com os dos outros reis do que hoje é Angola.
Da Guiné vê-se Cabo Verde de um ângulo distinto do de Portugal. E do Brasil ainda mais, porque, até quase os primeiros quinze anos da segunda metade do século 20, quando os progressos da técnica, em especial o avião a jato, dispensaram a escala cabo-verdiana para reabastecimento nas viagens transatlânticas -, o arquipélago funcionou como traço-de-união entre o Brasil e a Europa. Ainda está por fazer-se o inventário das influências recíprocas entre o Brasil e Cabo Verde - influências que foram muitas e intensas, até no plano literário, com a presença do regionalismo nordestino nos escritores de Claridade - e ainda está também por escrever-se a crônica do recrutamento de marinheiros cabo-verdianos pela marinha mercante brasileira e de como depois ancoravam em famílias do Recife, bem como a dos marujos brasileiros que se deixavam ficar no arquipélago.
Também está a merecer que se relate com pormenores, e de diferentes pontos de observação, como era, em São Tomé, o duro aprendizado dos escravos das mais distintas origens que já chegavam às Américas ladinos, isto é, acostumados às abominações e às exigências dos brancos e a se expressarem em português.
A entrelaçar-se com a história de matrimônios de culturas corre, portanto, uma outra, conflituosa, destruidora, cruel. Como o dos outros povos, o nosso passado não está despido de crueldade, e precisamos conhecê-lo também pelos enfoques dos outros, para dolorosamente melhor aprender a com ele nos reconciliar. É difícil discordar de Carlos Drummond de Andrade, quando escreveu que ''toda história é remorso''. Sabemos que a nossa é feita de conflitos e violência - a começar pela violência que a marca de ponta a ponta: a escravidão racial, com suas seqüelas.
Mas, como a história de outros povos, ela também possui áreas luminosas. E tanto os seus encontros venturosos, as suas criações afortunadas, quanto as suas colisões e rompimentos não fazem parte, em geral, apenas da história do Brasil, mas também dos demais povos que hoje têm por idioma oficial o português. Ainda que cada qual deles se veja com um passado próprio, as aventuras e desventuras os vincularam entre si ao longo dos séculos, e devem, para serem plenamente entendidas, ser enfeixadas numa história comum ou, quando menos, num conjunto de histórias comunicantes.

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro - RJ) em 24/03/2004

quarta-feira, 18 de março de 2009

THE REVOLUTION WILL NOT BE TELEVISED


You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.
The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by the
Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
The revolution will not give your mouth sex appeal.
The revolution will not get rid of the nubs.
The revolution will not make you look five pounds
thinner, because the revolution will not be televised, Brother.
There will be no pictures of you and Willie May
pushing that shopping cart down the block on the dead run,
or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
NBC will not be able predict the winner at 8:32
or report from 29 districts.
The revolution will not be televised.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of Whitney Young being
run out of Harlem on a rail with a brand new process.
There will be no slow motion or still life of Roy
Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the proper occasion.
Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
Junction will no longer be so damned relevant, and
women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day.
The revolution will not be televised.
There will be no highlights on the eleven o'clock
news and no pictures of hairy armed women
liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
The theme song will not be written by Jim Webb,
Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
The revolution will not be televised.
The revolution will not be right back after a message
bbout a white tornado, white lightning, or white people.
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
The revolution will not go better with Coke.
The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
The revolution will put you in the driver's seat.
The revolution will not be televised, will not be televised,
will not be televised, will not be televised.
The revolution will be no re-run brothers;
The revolution will be live.
Gil Scott-Heron

segunda-feira, 9 de março de 2009

GUY DEBORD....Tesis sobre la revolución cultural

La cultura es la esfera general del conocimiento y de las representaciones de lo vivido en la sociedad histórica dividida en clases; lo que viene a decir que es el poder de generalización existiendo aparte, como división del trabajo intelectual y trabajo intelectual de la división. La cultura se ha desprendido de la unidad de la sociedad del mito, cuando "el poder de unificación desaparece de la vida del hombre y los contrarios pierden su relación y su interacción vivientes y adquieren autonomía..." (Diferencia entre los sistemas de Fichte y Schelling). Al ganar su independencia, la cultura comienza un movimiento imperialista de enriquecimiento que es al mismo tiempo el ocaso de su independencia. La historia que crea la autonomía relativa de la cultura y las ilusiones ideológicas sobre esta autonomía se expresan también como historia de la cultura. Y toda la historia conquistadora de la cultura puede ser comprendida como la historia de la revelación de su insuficiencia, como una marcha hacia su autosupresión. La cultura es el lugar donde se busca la unidad perdida. En esta búsqueda de la unidad, la cultura como esfera separada está obligada a negarse a sí misma.

TESIS SOBRE LA REVOLUCIÓN CULTURAL

1-El fin tradicional de la estética es hacer sentir, en la privación y la ausencia, algunos elementos pasados de la vida que escaparían de la confusión de las apariencias a través de una mediación artística, siendo por tanto la apariencia la que sufre el reinado del tiempo. El logro estético se mide por una belleza que es inseparable de la duración y tiende incluso a reclamar la eternidad. El fin de los situacionistas es la participación inmediata en una abundancia pasional de vida mediante la transformación de momentos efímeros conscientemente dispuestos. La realización de estos momentos sólo puede darse como efecto pasajero. Los situacionistas consideran la actividad cultural, desde el punto de vista de la totalidad, como un método de construcción experimental de la vida cotidiana que puede desarrollarse permanentemente con la ampliación del ocio y la de-saparición de la división del trabajo (empezando por la del trabajo artístico).

2-El arte puede dejar de ser una relación de las sensaciones para convertirse en una organización directa de sensaciones superiores: se trata de producirnos a nosotros mismos, y no cosas que no nos sirvan.

3-Mascolo está en lo cierto al decir (Le Communisme) que la reducción de la jornada laboral por la dictadura del proletariado es "la mejor prueba que puede dar de su autenticidad revolucionaria". En efecto, "si el hombre es una mercancía, si es tratado como un objeto, si las relaciones generales entre los hombres son relaciones entre cosas, es porque se puede comprar su tiempo." Sin embargo, Mascolo se apresura demasiado al concluir "que el tiempo de un hombre libremente empleado" se emplea siempre bien, y que "el comercio del tiempo es el único mal." No hay libertad en el empleo del tiempo sin la posesión de los instrumentos modernos para la construcción de la vida cotidiana. El uso de tales instrumentos marcará el salto de un arte revolucionario utópico a un arte revolucionario experimental.

4-Una asociación internacional de situacionistas puede considerarse como una unión de trabajadores de un sector avanzado de la cultura, o más exactamente de todos aquellos que reivindican el derecho a un trabajo ahora impedido por las condiciones sociales. Por lo tanto como un intento de organización de revolucionarios profesionales de la cultura.

5-Nos hallamos separados en la práctica del control real de los poderes materiales acumulados en nuestro tiempo. La revolución comunista no ha tenido lugar y nos encontramos todavía en el marco de la descomposición de las viejas superestructuras culturales. Henri Lefebvre ve correctamente que esta contradicción está en el centro de una discordancia específicamente moderna entre el individuo progresista y el mundo, y llama romántico-revolucionaria a la tendencia cultural que se funda sobre esta discordancia. El error de la concepción de Lefebvre consiste en hacer de la simple expresión del desacuerdo un criterio suficiente para una acción revolucionaria dentro de la cultura. Lefebvre renuncia de antemano a cualquier experimento que tienda a un cambio cultural profundo, y queda satisfecho con un contenido: la conciencia del posible-imposible, que puede expresarse sin importar qué forma adopte dentro del marco de la descomposición.

6-Quienes quieren superar el viejo orden establecido en todos sus aspectos no pueden ligarse al desorden presente, ni siquiera en la esfera de la cultura. Deben luchar sin demora, también en el campo cultural, por la aparición concreta del orden móvil del futuro. Esta posibilidad, presente ya entre nosotros, desacredita toda expresión dentro de las formas culturales conocidas. Todas las formas de pseudo-comunicación deben llevarse hasta su completa destrucción, para llegar un día a la comunicación real y directa (al uso, en nuestra hipótesis, de medios culturales superiores: la situación construida). La victoria será para quienes sepan crear el desorden sin amarlo.

7-En el mundo de la descomposición cultural podemos probar nuestras fuerzas, pero no emplearlas. La tarea práctica de superar nuestro desacuerdo con el mundo, de vencer la descomposición mediante construcciones más elevadas, no es romántica. Seremos "revolucionarios románticos", en el sentido de Lefebvre, precisamente en la medida en que fracasemos.