sábado, 21 de novembro de 2009

RODÉSIA(Tim Maia)

Em Guiné-Bissau
Não está legal
Muito menos na Rodésia
África do Sul
Pegue o sangue azul
Mande para as cucuias

Só assim vão ver
Que o preto é bom
Mas é valente também

Meu irmão de cor
Chega de pudor
Pois assim não é possível
Toma o que é seu
Pois foi quem te deu
Bela natureza triste

Foi dexar pra lá
Mas assim não dá
Veja o que aconteceu

Vai bem devagar
Vai bem como és
Mas vai bem objetivo
Pegue o que é seu
Viva livre em paz
Pois a sua terra é esta

Sei que és do som
Não és de matar
Mas não vais deixar pra lá

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dia 20 de novembro........Lutemos um pouco mais!!!


O EMPAREDADO

"( .... ) Eu não pertenço à velha árvore genealógica das intelectualidades medidas, dos produtos anêmicos dos meios lutulentos, espécies exóticas de altas e curiosas girafas verdes e spleenéticas de algum maravilhoso e babilônico jardim de lendas... Num impulso sonâmbulo para fora do círculo sistemático das Fórmulas preestabelecidas, deixei-me pairar, em espiritual essência, em brilhos intangíveis, através dos nevados, gelados e peregrinos caminhos da Via Láctea...
E é por isso que eu ouço, no adormecimento de certas horas, nas moles quebreiras de vagos torpores enervantes, na bruma crepuscular de certas melancolias, na contemplatividade mental de certos poentes agonizantes, uma voz ignota, que parece vir do fundo da Imaginação ou do fundo mucilaginoso do Mar ou dos mistérios da Noite - talvez acordes da grande Lira noturna do Inferno e das harpas remotas de velhos céus esquecidos, murmurar-me:
"Tu és dos de Cam, maldito, réprobo, anatematizado! Falas em Abstrações, em Formas, em Espiritualidade, em Requintes, em Sonhos! Como se tu fosses das raças de ouro e da aurora, se viesses dos arianos, depurado por todas as civilizações, célula por célula, tecido por tecido, cristalizado o teu ser num verdadeiro cadinho de idéias, de sentimentos - direito, perfeito, das perfeições oficiais dos meios convencionalmente ilustres! Como se viesses do Oriente, rei! Em galeras, dentre opulências, ou tivesses a aventura magna de ficar perdido em Tebas, desoladamente cismando através de ruínas; ou a iriada, peregrina e fidalga fantasia dos Medievos, ou a lenda colorida e bizarra por haveres adormecido e sonhado, sob o ritmo claro dos Astros, junto às priscas margens venerandas do Mar Vermelho!
Artista! Pode lá isso ser se tu és d'África, tórrida e bárbara, devorada insaciavelmente pelo deserto, tumultuada de matas bravias, arrastada sangrando no lodo das Civilizações despóticas, torvamente amamentada com o leite amargo e venenoso da Angústia! A África arrebatada nos ciclones torvelinhantes das Impiedades supremas, das Blasfêmias absolutas, gemendo, rugindo, bramando no caos feroz, hórrido, das profundas selvas brutas, a sua formidável dilaceração humana! A África laocoôntica, alma de trevas e de chamas, fecundada no Sol e na Noite, errantemente tempestuosa como a alma espiritualizada e tantálica da Rússia, gerada no Degredo e na Neve - pólo branco e pólo negro de Deus!
- Artista?! Loucura! Loucura! Pode lá isso ser se tu vens dessa longínqua região desolada, lá do fundo exótico dessaÁfrica sugestiva, gemente, Criação dolorosa e sanguinolenta de Satãs rebelados, dessa flagelada África grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, tetricamente fulminada pelo banzo mortal; dessa África dos Suplícios, sobre cuja cabeça nirvanizada pelo desprezo do mundo Deus arrojou toda a peste letal e tenebrosa das maldições eternas!
A Africa virgem, inviolada no Sentimento, avalanche humana amassada com argilas funestas e secretas para fundir a Epopéia suprema da Dor do Futuro, para fecundar talvez os grandes tercetos tremendos de algum e novo majestoso Dante negro! Dessa África que parece gerada para os divinos cinzéis das colossais e prodigiosas esculturas, para as largas e fantásticas Inspirações convulsas de Doré - inspirações inflamadas, soberbas, choradas, soluçadas,bebidas nos Infernos e nos Céus profundos do Sentimento humano. Dessa África cheia de solidões maravilhosas, de virgindades animais instintivas, de curiosos fenômenos de esquisita Originalidade, de espasmos de Desespero, gigantescamente medonha, absurdamente ululante - pesadelo de sombras macabras - visão valpurgiana de terríveis e convulsos soluços noturnos circulando na Terra e formando, com as seculares, despedaçadas agonias da sua alma renegada, uma auréola sinistra, de lágrimas e sangue, toda em torno da Terra...
Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça. Se caminhares para a direita baterás e esbarrarás, ansioso, aflito, numa parede horrendamente incomensurável de Egoísmos e Preconceitos! Se caminhares para a esquerda, outra parede, de Ciências e Críticas, mais alta do que a primeira, te mergulhará profundamente no espanto! Se caminhares para a frente, ainda nova parede, feita de Despeitos e Impotências, tremenda, de granito, broncamente se elevará ao alto! Se caminhares, enfim, para trás, ah! ainda, uma derradeira parede, fechando tudo, fechando tudo ~ horrível - parede de Imbecilidade e Ignorância, te deixará num frio espasmo de terror absoluto...
E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras... Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades... Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir longas, negras, terríficas! Hão de subir, subir, subir, mudas, silenciosas, até as Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho..."

Cruz e Souza
ln: Obras. São Paulo, Edições Cultura, 1943.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009


“Quando eu escrevo, ou quando eu recito

uma palavra, um mundo poluído explode

comigo e logo os estilhaços desse corpo,

retalhado em lascas de morte e fogo, como

napalm,espalham imprevisíveis significados ao redor de mim.”

Torquato Neto

sexta-feira, 31 de julho de 2009

TERESINA

É que de lá eu vi a vida
Vi o sol onde o dia se esconde....

E que nas memórias são as ruas, as águas,suas lamas,cheiros e cores
e no sabor dos teus dedos,vejo o susto em que me pegou a natureza.
Mas as pegadas dos teus saltos atravessam o meu reino.

Esse mesmo reino besta que de nada me vale....
Essa mesma porta que se abre...
Quebrando a força da luz que cega meus olhos!


E é pelo caminho em frente a minha casa
que corro com os pés sem roupa
Pois sei que ja vens ao meu encontro,que já vais chegar.

Suspende-me pelos raios do teu dia,
Segura em mim a esperança dos teus dias,

que rola solta em meus planos,
O sangue claro do teu rio
As veias grossas do poty.

Em tuas lendas,em tuas estórias,meninos que comem a beira d'agua

vivi os mesmos sonhos,com os olhos em bugalhos,
sedentos de pedir em seus primeiros momentos.
E quando me adiantei nos dias,
segui as marcas do teu vestido e o couro de tuas sandálias.

E foi nas velhas estradas que ouvi as vozes em romaria,

os cantos dos santos em seus retraidos lamentos.
lágrimas espalhadas de saudades pelo andor....
Manchando meu corpo em linho branco,
dissolvendo a lama escura que compoem as contas do meu rosário.

Alexandre Farias

segunda-feira, 27 de julho de 2009

"Sou um escritor Ibo, porque essa é a minha cultura basica; nigeriano, africano e escritor...não,primeiro negro,depois escritor. Cada uma dessas identidades efetivamente invoca um certo tipo de compromisso de minha parte. Devo enxergar o que é ser negro-e isso significa ser suficientemente inteligente para saber como gira o mundo e como se saem os negros no mundo. É isso que significa ser negro. Ou africano-dá no mesmo: que significa a África para o mundo? Quando se vê um africano, o que significa isso para um homem branco?"
Chinua Achebe

terça-feira, 14 de julho de 2009

ÉTICA X CRISE ECONÔMICA

07/07/2009 - 14h09
Falta de ética e de Deus causaram crise econômica, diz papa

da BBC Brasil

O Vaticano divulgou, nesta terça-feira, a terceira encíclica do papa Bento 16, intitulada "Caridade na Verdade", onde o pontífice aponta os motivos que, segundo a Igreja Católica, teriam causado a atual crise econômica e indica a necessidade de reformas para colocar o homem no centro da economia.

A encíclica foi divulgada um dia antes da abertura, na cidade de L'Aquila, na Itália, da cúpula do G8, que reúne os líderes dos setepaíses mais ricos do mundo e a Rússia, e onde a crise econômica deve ser o principal tema de discussões.

No documento de 148 páginas, Bento 16 afirma que o desenvolvimento econômico é positivo, porque "tirou milhões de pessoas da miséria e deu a muitos países a possibilidade de se tornarem atores eficazes da política internacional".

Por outro lado, segundo o papa, a crise econômica atual evidenciou anomalias e problemas que devem ser analisados sem usar ideologias,que "simplificam a realidade".

Disparidades

Na avaliação do papa, a riqueza mundial cresce em termos absolutos, mas aumentam as disparidades e surgem novas pobrezas.

"Nos países ricos, novas categorias sociais empobrecem e, em áreas mais pobres, alguns grupos gozam de uma espécie de desenvolvimento consumista, que contrasta de modo inadmissível com situações de miséria desumanizadora. Continua o escândalo de desproporções revoltantes", diz o texto, preparado por Bento 16 e baseado na doutrina social da Igreja.

No documento, o papa aponta a "atividade financeira especulativa, fluxos migratórios muitas vezes provocados e depois mal administrados, e o uso desregrado dos recursos da terra", como alguns dos principaisfatores da crise.

Além disso, o papa afirma que a busca apenas do lucro, sem pensar no bem comum, pode destruir a riqueza e gerar mais pobreza.

"A economia precisa de uma ética amiga das pessoas para um correto funcionamento.(...). A crise atual mostra que os princípios de ética social, transparência, honestidade e responsabilidade não podem ser negligenciados", afirma o papa na encíclica.

De acordo com o documento, a Igreja não sugere soluções técnicas para os problemas desencadeados pela crise que afeta a economia internacional, mas indica a doutrina social da Igreja como guia e recorda aos governantes que o "primeiro capital a ser preservado e valorizado é o homem, em sua integridade".

"A Igreja não tem soluções técnicas a oferecer, mas uma missão de verdade a cumprir para uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade e vocação ", diz o texto.

Deus

No segundo dos seis capítulos da encíclica, o papa afirma que a prioridade deve ser a criação de empregos e o acesso ao trabalho, assim como maiores garantias aos trabalhadores, cujos direitos estão em risco devido à "competição internacional das empresas e ao uso especulativo dos recursos financeiros".

Na avaliação do papa, há condições para uma grande redistribuição da riqueza, mas "projetos egoístas e protecionistas" podem frear a difusão do bem estar.

"A crise atual exige mudanças profundas para as empresas, que não podem ter como objetivo apenas os interesses dos proprietários e as indicações dos acionistas, mas devem se encarregar da comunidade local".

Segundo o papa, há uma relação fundamental entre o desenvolvimento econômico e social e o ponto de vista religioso. O evangelho, segundo ele, é "imprescindível" para construir uma sociedade justa e livre.

"Sem a perspectiva de uma vida eterna e sem Deus, o desenvolvimento é negado e desumanizado", escreve Bento 16.

Organismos internacionais

Bento 16 sugere ainda a necessidade de reformar alguns organismos internacionais, para que sejam mais eficientes no combate à fome e no gerenciamento da globalização.

"É urgente a presença de uma verdadeira autoridade política mundial", escreve o papa.

Segundo o pontífice, os organismos internacionais deveriam se interrogar a respeito da real eficácia de seus "caros aparatos burocráticos".

"Às vezes, os pobres servem para manter caras organizações burocráticas. É preciso uma grande transparência sobre os fundos recebidos", diz a encíclica.

Segundo Bento 16, o mercado não é negativo, mas não pode cumprir sua função econômica sem a solidariedade e confiança recíprocas, e deve ter como objetivo o bem comum, que deve ser responsabilidade principalmente da comunidade política.

Natalidade

Na encíclica, o papa volta a defender a vida, desde a concepção até a morte natural, e critica os programas de controle demográfico, como parte de medidas para desenvolvimento econômico.

"Em várias partes do mundo, há práticas de controle demográfico que chegam a impor o aborto. Há uma mentalidade contra a natalidade nos países desenvolvidos que se tenta transmitir a outros Estados, como se fosse um progresso cultural", escreve o papa.

Bento 16 afirma que as causas do subdesenvolvimento não são de ordem material, mas, sobretudo, "a falta de fraternidade entre homens e povos" que, por causa da globalização crescente, "são vizinhos, mas não irmãos".

Em sua opinião é necessária uma mudança de mentalidade e de estilo de vida.

"Menos hedonismo e consumismo e mais respeito aos recursos ambientais e à vida", sugere o papa.

OS SAPATOS DE ETIENNE

Etienne Samain, o antropólogo da Unicamp que resgatou a cultura dos índios Urubu-Kaapor, como antes já o fizera com os Kamayurá do Alto Xingu, pois o muitíssimo bem casado Etienne, belga de nascimento, brasileiro de coração, saibam todos, já foi padre. E dizem que muito bom padre - ele não esconde isso - se é que havia maus padres na fria e chuvosa Louvaine naquele ano santo de 1964.

Escolho 1964 não porque marcou o clímax da interminável guerra lingüística entre flamengos e francófones, da qual Louvaine era uma espécie de epicentro. Mas porque, como regente encarregado do pessoal francês e latino que aportava no Collegium Sancti Spiritus, Etienne protagonizou nessa época uma história digna de figurar num conto de Charles Dickens.

Pelo Sancti Spiritus passavam padres do mundo inteiro, para atualizar conhecimentos ou para fortalecer sua fé. Assim foi que um dia chegou um hóspede raro, raríssimo - o arcebispo de um país comunista. Novo ainda, rosto bem talhado, o visitante trazia nos olhos inteligentes a sombra das sucessivas guerras e invasões que haviam sangrado seu país. De pelo menos uma ele havia participado, quando ainda era civil. Mas agora, mesmo sendo um ícone da resistência cristã num país dilacerado física e espiritualmente, ele era sobretudo um cavalheiro, um homem simples que andava de chapéu de pároco de aldeia e batina preta comum, dispensando os broqueis do arcebispado.

E que cabeça! Dirigia-se aos franceses em francês, aos alemães em alemão, aos italianos em italiano, aos americanos em inglês. Se sua permanência em Louvaine fosse mais longa, era certo que logo estaria falando também flamengo, para que não pairassem dúvidas sobre sua neutralidade no imbróglio lingüístico da região.

Como o quarto de Etienne ficava colado ao quarto do hóspede, não faltou oportunidade de manterem, mais de uma vez, boa e viva conversação. Fizeram ótima camaradagem. O visitante chegou a elogiar o modo convincente como Etienne celebrava a Eucaristia. Em outra ocasião assegurou-lhe que a "igreja do silêncio", abafada pelo comunismo, constituía na verdade o maior espetáculo de fé neste século. Tudo conversa simples e amistosa que Etienne ia transportando para um diário que mantinha nesse tempo - o testemunho de uma época em que ainda estava em paz com suas convicções.

No dia seguinte caiu um temporal. Olhando pela janela, Etienne viu o arcebispo caminhando na chuva. Voltava de um passeio e estava completamente encharcado, com lama dos pés às orelhas. Seus sapatos esguichavam água pelas laterais e tinham-se descolado na altura do bico. Sapatos de país comunista, pensou Etienne. Pouco depois Etienne viu-o entrar e, como que experimentando a extensão de sua fé, indagou dele:

- Pode me dizer qual o tamanho do seu pé?

- Quarenta e dois.

O arcebispo sorriu ao constatar que calçavam o mesmo número.

- Tem mais de um par de sapatos?

Etienne tinha três.

- Pode me emprestar um?

Com imenso prazer Etienne colocou à frente dele os dois pares sobressalentes para que o arcebispo escolhesse o que mais lhe agradasse. O polonês sentou-se na cama de Etienne e escolheu o mais novo, o de cadarços.

Depois disso o destino traçou caminhos diferentes para eles. Primeiro deu a Etienne um vicariato em Châtelineau, depois uma cadeira de professor no seminário de Tournai e, por fim, colocou coisas surpreendentes em seu caminho: o Brasil, a paixão pelos índios e o desligamento da Igreja. E também Godelieve, nome que em bom português significa "amada de Deus", sua alegre e boa esposa.

Nunca mais voltou a ver pessoalmente o arcebispo, embora ouvisse falar dele com freqüência cada vez maior, nos anos seguintes, pois estava se tornando uma pessoa proeminente. Em 1967 fizeram-no cardeal de Cracóvia e em 1981, numa rua de Roma, sofreu um atentado a tiros. Já não o chamavam pelo nome de antigamente, mas sim por um criptônimo escolhido no topo de uma história de 305 papas.

Já vai longe o tempo em que, na pele de Karol Woytila, João Paulo II parou em Louvaine por alguns dias e saiu de lá com um par de sapatos novos, os sapatos de Etienne. Agora que ele volta ao Brasil para uma nova contagem de seu rebanho, acho muito justo que Etienne vá vê-lo e, chovendo ou não, possa dirigir-se a ele com toda a liberdade que se deve aos bons camaradas:

- Pode me dizer, Santidade, qual é o tamanho do seu pé?

Vão achar que Etienne ficou louco. Mas Karol Woytila certamente vai se lembrar e entender. Nesse ponto, é bom esclarecer que, ao emprestar os sapatos ao futuro Papa, Etienne desobrigou-o inteiramente da devolução. Mas, mesmo assim, pode ser que Sua Santidade descalce os sapatos na hora e os devolva a Etienne, como uma retribuição tardia. Espera-se que sejam de boa qualidade.

(Eustáquio Gomes)

Para o aniversário dos 25 anos de Pontificado de João Paulo 2, em 16 de outubro de 2003, enviei-lhe esta mensagem:

Meu amigo, Karol Wojtyla. Era Lovaina em novembro de 1964.Você era arcebispo de Cracóvia. Passava por Lovaina e se hospedava no Colégio do Espírito Santo, rua de Namur, número 40. O seu quarto de hospede confinava com ao meu. Tínhamos conversado longamente no decorrer da semana de tua visita. Entre uma e outra sessão do Concílio de Vaticano 2, você tinha voltado com o desejo de rever alguns velhos amigos da universidade. Não era ainda teu amigo. Creio que, desde então, eu me tornei o suficiente. Na Bélgica, chovia. Chovia muito. Ao final de uma tarde, você voltou ao "Espírito Santo" e os seus sapatos eram como barcos cheios de água. Você me perguntou se podia lhe emprestar um par de sapatos. Por felicidade, calçava uns 42 e tinha um par que lhe lembrava a forma de duas gotas d'água. Você quis, depois, me devolver esses sapatos. Eu os ofereci a você e, além disso, deixei na tua mala os dois volumes do La Pensée Communiste que acabava de publicar o cônego Grégoire [da Universidade de Lovaina]. Dois livros que eram vendidos, por debaixo dos panos, na livraria universitária muito próxima. Você me convidou, depois, à Cracóvia. Nunca consegui chegar até lá. O visto me foi sempre recusado. Os tempos - é verdade - mudaram muito. Temos um e outro viajado, aliás, muito mais do que Ulisses. Chega, assim, a hora de nossos sapatos descansarem um pouco e de tomarmos o tempo, todo o tempo de olhá-los. Que o meu desejo, minha paz e minha amizade possam te chegar.

(Etienne Samain)

Não recebi ainda uma resposta. Pouco importa. Tenho a certeza de que, um dia, deveremos nos reencontrar. Será no paraíso? Penso que não.

Contra o racismo: com muito orgulho e amor
Neusa Santos Souza
- Especial para o Correio da Baixada, em 13 de maio de 2008

Comemoramos hoje 120 anos de abolição da escravatura negra no Brasil. Abolição da escravidão quer dizer aqui fim de um sistema cruel e injusto que trata os negros como coisa, objeto de compra e venda, negócio lucrativo para servir à ambição sem fim dos poderosos. Abolição da escravatura quer dizer aqui fim da humilhação, do desrespeito, da injustiça. Abolição da escravatura quer dizer libertação.

Mas será que acabamos mesmo com a injustiça, com a humilhação e com o desrespeito com que o conjunto da sociedade brasileira ainda nos trata? Será que acabamos com a falta de amor-próprio que nos foi transmitido desde muito cedo nas nossas vidas? Será que já nos libertamos do sentimento de que somos menores, cidadãos de segunda categoria? Será que gostamos mesmo da nossa pele, do nosso cabelo, do nosso nariz, da nossa boca, do nosso corpo, do nosso jeito de ser? Será que nesses 120 de abolição conquistamos o direito de entrar e sair dos lugares como qualquer cidadão digno que somos? Ou estamos quase sempre preocupados com o olhar de desconfiança e reprovação que vem dos outros?

Cento e vinte anos de abolição quer dizer 120 de luta dos negros que, no Brasil, dia a dia, convivem com o preconceito e a discriminação racial. 120 de abolição quer dizer 120 de luta contra o racismo desse país que é nosso e que ajudamos a construir: não só com o trabalho, mas, sobretudo, com a cultura transmitida por nossos ancestrais e transformada e enriquecida por cada um de nós. 120 de abolição quer dizer 120 anos de luta contra todos os setores da sociedade e da vida cotidiana: nos espaços públicos e nos espaços privados; na Câmara, no Senado, nos sindicatos, no local de trabalho, nas escolas, nas universidades, no campo, na praça e em nossas casas. 120 de abolição quer dizer 120 de luta contra qualquer lugar em que houver um negro que ainda sofra preconceito e discriminação raciais. Nesses 120 anos, tivemos muitas vitórias, conquistamos muitas coisas, especialmente um amor por nós mesmos, uma alegria, um orgulho de sermos o que somos: brasileiros negros – negros de muitos tons de cor de pele, efeito da mistura, que é uma bela marca da sociedade brasileira.

Nesses 120 anos tivemos muitas conquistas e temos muito mais a conquistar. Nesses 120 anos vencemos muitas batalhas e temos muito mais a batalhar.

Nesses 120 anos comemoramos muitas vitórias e temos muito mais a comemorar.

A escravidão acabou, mas a nossa luta continua!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

CULTURA E RESISTÊNCIA:FRANTZ FANON, UMA VOZ DOS OPRIMIDOS

A divisão dos homens entre opressores e oprimidos, a desumanização indígena e o condicionamento do negro pelo branco. Contribuições fundamentais na primeira metade do século passado, as questões debatidas pelo psiquiatra e intelectual negro continuam atuais

Anne Mathieu

Foi como um estrondo no céu do pós-guerra. Em 1952, aparecia Pele negra, máscaras brancas [1], uma “interpretação psicanalítica do problema negro”.
A introdução proclamava: “É preciso libertar o homem de cor de si mesmo. Lentamente, porque há dois campos: o branco e o
negro”.

Seu autor, Frantz Fanon (1925-1961), foi ao mesmo tempo psiquiatra, ensaísta e militante político ao lado da Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), com a qual compartilhava a causa independentista [2]. Martinicano, faz parte do grupo de intelectuais negros cuja importância a França tem dificuldade em reconhecer, embora tratem de uma história comum a todos. anticolonialista radical, de escrita altamente literária e retórica, contribuiu para aclarar não só a história, mas também reflexões e debates contemporâneos. Preferem, no entanto, esquecê-lo sob o rótulo de “profeta fracassado [3]”.

A temática dos “dois campos” evocada por Fanon não é exclusivamente uma oposição entre essas duas cores de pele; inscrevem-se na antinomia “opressores” e “oprimidos”. Em sua visão, “uma sociedade é racista ou não é” e “o racismo colonial não difere de outros racismos”. Quando busca explicar uma ideia-força e mostrar o escândalo que representa, sua prosa poética e retórica se revela. além disso, para ele, a libertação dos indígenas passa pela recusa do mundo da interdição, pela afirmação do “eu” negado pelo colonizador, que os vê como uma massa disforme e serviçal: “o indígena é um ser aprisionado, o apartheid é apenas uma modalidade da compartimentação do mundo colonial. a primeira coisa que o indígena aprende é a manter-se em seu lugar, a não ultrapassar os limites. É por isso que seus sonhos são musculares, de ação, agressivos – Sonho que salto, nado, corro, escalo. Sonho que estou gargalhando, que atravesso o rio com um pulo, que sou perseguido por carros que nunca me alcançam. Durante a colonização, o colonizado não pára de se libertar entre as nove horas da noite e as seis da manhã”. Em outros tempos, Paul Nizan escrevia:
“Enquanto os homens não forem completos e livres, não caminharem por suas próprias pernas nas terras que lhes pertencem, sonharão à noite [4]”. opressão burguesa em 1933, opressão colonial em 1952.
Um libelo apaixonado
, Pele negra, máscaras brancas nos conduz ao universo atribuído ao negro que foi Sistematicamente condicionado pelo branco. São páginas apaixonantes nas quais a herança – apesar das divergências – dos oradores da negritude e do texto “Orfeu Negro” [5], de Jean-Paul Sartre, se faz sentir por meio de encadeamentos lexicais metafóricos e analíticos do corpo, do olhar. Fanon examina o corpo, talvez por isso escreveu: “a primeira versão deste livro foi ditada, andando de um lado para outro como um orador que improvisa; o ritmo do corpo em movimento, o sopro da voz recitando o estilo [6]”. Porém, a realidade supera a metáfora: “No primeiro olhar branco, ele sentiu o peso de sua melanina”. Séculos de escravidão e colonização determinaram um olhar sobre o outro do qual é difícil para não dizer impossível, se despojar: “Quando me Amam, dizem que é apesar da cor da minha pele. Quando me detestam, se justificam dizendo que não é pela cor da pele. Em uma ou outra situação, sou prisioneiro de um círculo infernal”.

O racismo se traduz também na designação do negro, submetido à conotação ancestral de sua cor, que se tornou evidência, quase essência: “O negro, o obscuro, as sombras, as trevas, a noite, as profundezas abissais, denegrir a reputação de alguém; e do outro lado: a mirada clara da inocência, a pomba branca da paz, a luz ofuscante, paradisíaca”. A linguagem não pode expurgar essas conotações, que aparecem também na religião: “O pecado é negro como a virtude é branca”. A análise não era nova naquele momento, mas, de uma obra à outra, Fanon foi mais longe. Seu último livro, Os condenados da terra (1961) [7], demonstra que a “compartimentação” da sociedade colonial e racista gera, Obrigatoriamente, uma linguagem racista: “Por vezes, o maniqueísmo alcança o limite de sua lógica e desumaniza o colonizado”.
Dito de outra forma, como denunciou Jean-Paul Sartre durante a guerra da Argélia [8], o sistema colonial cria um “sub-homem”.

Fanon prossegue: “Falando claramente, [o maniqueísmo] animaliza. Faz-se alusão aos Movimentos arrastados durante o trabalho, ao cheiro queemana das vilas indígenas, às hordas, ao fedor, à reprodução desenfreada, às gesticulações. Demografia galopante, massas histéricas, rostos nos quais não há qualquer traço de humanidade, corpos obesos que não se parecem com nada, preguiça sob o sol, ritmo vegetal, todas essas expressões fazem parte do vocabulário colonial”.
E vale mencionar que elas ainda não desapareceram totalmente de nossas latitudes, como lembra a canção Lebruit et e l’odeur [o barulho e ocheiro] (1995) [9], do grupo Zebda.

A “desumanização” do indígena justifica o tratamento ao qual é submetido: “Disciplinar, vestir, dominar e pacificar são as expressões mais utilizadas pelos colonialistas em territórios ocupados”. A guerra da Argélia nada mais é que a continuação paradoxal de um sistema que se baseia na “força” e no desprezo. Dessa forma, a introdução de L’an V de la révolution algérienne [O ano V da revolução argelina] (1959) [10] ressalta que desde o início da guerra, “[o colonialismo] francês não renunciou a nenhum radicalismo: nem o do terror, nem o da tortura”.

Calcularam mal: “as repressões, longe de sufocarem as revoltas, estimulam o progresso da consciência nacional”, analisa Fanon. “Se, de fato, minha vida tem o mesmo valor que a do colono, seu olhar não me fulmina mais, sua voz não mais me petrifica. Sua presença não me perturba mais. Na prática, sou eu quem o incomoda. Não só sua presença não me importuna mais, como já estou lhe preparando tantas emboscadas que logo ele não terá outra opção senão fugir”. Assim, a libertação psíquica induz à perda do medo, ao mergulho no combate pela independência.A violência da palavra
Em que condições esse combate vai se desenrolar? Em Os condenados da terra postula que “a descolonização é sempre um fenômeno violento”.
Isso por que violência chama violência e quando o opressor invade a menor parcela que seja de um território, é difícil manter-se aí pacificamente: “Cada estátua, a de Faidherbe ou Lyautey, de Bugeaud ou do Sargento Blandan, todos esses conquistadores que pousaram sobre o solo colonial não param de significar uma única coisa: ‘Estamos aqui pela força das baionetas...’”. É evidente a resposta dos oprimidos, considerada estrondosa quando se trata de outros países sob outros comandos. Fanon justifica a violência? Não em todos os movimentos:
“Condenamos, com o coração aflito, esses irmãos que são jogados à ação com a brutalidade quase psicológica que faz nascer e mantém uma opressão secular”. Não obstante, Fanon nos convida à uma compreensão da gênese da violência e da única alternativa deixada aos oprimidos para sua libertação. Sua descrição da “compartimentação” da sociedade colonial, com sua “linha de partilha” e sua “fronteira indicada pelos quartéis e postos de polícia”, nos remete, aliás, ao nosso universo militarizado que, bem longe de “pacificar”, produz ele mesmo o “radicalismo” que pretende combater.

A perspicácia de Fanon vale também para sua análise sobre o futuro de um país descolonizado quando uma “burguesia nacional (in)autêntica” sobe ao poder e não fornece ao povo “capital intelectual e técnico”.
Baseando-se no exemplo da América Latina, ele previne sobre o risco de transformação de um país em “território de prazeres a serviço da burguesia ocidental”. Disseca a propensão dessa burguesia “cinicamente burguesa” de romper a unidade nacional jogando com o “regionalismo”. E conclui: “Essa luta implacável à qual se entregam as etnias e tribos, essa preocupação agressiva de ocupar os postos livres pela partida do estrangeiro vão, igualmente, gerar competições religiosas.
Assistiremos a confrontação entre as duas grandes religiões reveladas:
o islamismo e o catolicismo”. Fanon alerta até para o perigo de um partido único, que utiliza o passado para “adormecer” o povo, “mandá- lo lembrar da época colonial e medir o imenso caminho percorrido”.
Quantos países africanos nos vêm à cabeça?

Em reação à colonização, segundo ele, não se deve clamar por uma cultura negra como único horizonte. Se houve “obrigação histórica” para “os homens de cultura africana ‘racializar’ suas reivindicações, de falar antes em cultura africana que em cultura nacional”, por outro lado isso “vai conduzi-los a um beco sem saída”. Suas crenças foram lançadas desde sua primeira obra numa fórmula magnífica sobre a qual os adeptos do comunitarismo poderiam refletir: “Não quero cantar meu passado às custas do meu presente e futuro”. Tal afirmação, no entanto, não se fecha a uma reflexão sobre a história do colonialismo, a qual, como ele lembrava em 1952, se apoiou sobre a história da Europa. O colonialismo baseou-se em “valores” que precisam ser repensados: “Se é em nome da inteligência e da filosofia que proclamamos a igualdade dos homens, é também em seu nome que decidimos exterminá-los”.

Em 1961, a condenação de Fanon se amplificaria com uma veemência radical: “Abandonemos essa Europa que não para de falar no homem, ao mesmo tempo que o massacra onde quer que o encontre, em todos os cantos de suas ruas limpas, em todos os cantos do mundo”. Afrontemos
de uma maneira salutar essa França que, ao mesmo tempo em que se liberava do nazismo e se reconstruía, massacrava Sétif (maio de 1945) ou Madagascar (março de 1947). Essa França que, no fim da batalha, virava as costas aos seus irmãos de combate senegaleses ou marroquinos que estavam na linha de frente. Escutemos essa voz que há mais de quarenta anos martela sua verdade incisiva, que poderia muito bem ainda ser a nossa: “Podemos fazer qualquer coisa hoje em dia sob a condição de não imitar a Europa, sob a condição de não sermos obcecados pelo desejo de alcançá-la. A Europa adquiriu tal velocidade, louca e desordenada, que escapa a todos os outros condutores, a toda razão, que segue numa vertigem assustadora em direção a abismos dos quais é melhor se distanciar rapidamente”.

Fanon sabe a qual Europa se refere, ele que soube homenagear os judeus da Argélia, os franceses daqui ou de lá que abraçaram a causa independentista. O gesto é universal: “Eu, o homem de cor, quero apenas uma coisa: que jamais o instrumento domine o homem. Que cesse para sempre a servidão de homem para homem. Quer dizer, de mim para outro.”

*Anne Mathieu é diretora da revista Aden-Paul Nizan , de Paris.

[1] Peau noire masques blancs, Edições Seuil (Paris), com prefácio de Francis Jeanson, que redigiria também um posfácio para a reedição de 1965. A obra está disponível até hoje na coleção “Points Essais”.

[2] Ele foi seu porta-voz a partir de junho de 1957. Desde 1953, foi médico-chefe do hospital psiquiátrico de Blida-Joinville (Argélia).

[3] Ver o texto do ensaísta Lothar Baier (Agone, n°33, Marselha, abril de 2005).

[4] Paul Nizan, Antoine Bloyé (1933), Grasset, Les Cahiers rouges [Cadernos vermelhos], Paris, 2005.

[5] Jean-Paul Sartre, “orfeu Negro”, prefácio em: Léopold Sedar Senghor, Antologie de la poésie nègre et malgache [Antologia da poesia negra e malgaxe], Presses universitaires de France [imprensas universitárias da França], Paris, 1948.

[6] Alice Cherki, Frantz Fanon, portrait [Frantz Fanon, um re trato],Seuil, 2000, p.46.

[7] Publicado por François Maspero com um prefácio de Sartre; foi proibido desde o lançamento. Fanon, já sabendo que estava condenado pela leucemia, ditou cada página. Recebeu um exemplar do livro assim que foi impresso, três dias antes de morrer num hospital dos Estados Unidos. De acordo com sua vontade, foi enterrado num vilarejo argelino libertado próximo à fronteira com a Tunísia.

[8] Jean-Paul Sartre et la guerre d’Algérie [Jean-Paul Sartre e a guerra da Argélia], Le Monde Diplomatique, novembro de 2004.

[9] Inspirada em uma declaração de Jacques Chirac sobre o “barulho e cheiro” provocados pelos imigrantes.

[10] Publicado por Maspero. Longos trechos do último capítulo foram publicados em Les Temps Modernes [os Tempos Modernos]. A obra foi acusada de atentar contra a segurança do Estado. Hoje, está disponível pela editora Découverte, na coleção “(re)Découverte” [(re) Descorberta]. A introdução, redigida em julho de 1959, não figurava na primeira edição.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"Todas as decisões que o ser humano toma em seu ambiente social (pois ninguém está sozinho, todos nós estamos conectados a outras pessoas) têm significado ético, têm um impacto em outras pessoas, mesmo quando só pensamos no que ganhamos ou perdemos com o que fazemos. A extensão planetária da televisão não nos permite mais dizer “eu não sabia” como desculpa para nossa inação. Contemplamos diariamente como se faz o mal, como se sofre a dor, e dizer que nada podemos fazer pelo outro é uma desculpa fraca e pouco convincente, até mesmo para nós próprios. Não há como negar que em nosso planeta abarrotado e intercomunicado dependemos todos uns dos outros e somos, num grau difícil de precisar, responsáveis pela situação dos demais; enfim, que o que se faz em uma parte do planeta tem um alcance global (...) assim como o poder de carga de uma ponte se mede não pela força média de todos os pilares mas pela força de seu pilar mais fraco, a qualidade de uma sociedade também não se mede pelo PIB, pela renda média de sua população, mas pela qualidade de vida de seus membros mais fracos.
Zygmunt Baulman

sexta-feira, 27 de março de 2009

POR UMA HISTÓRIA COMUM(Embaixador Alberto da Costa & Silva)



O meu antepassado que vivia no Maranhão, na metade do século 18, não ignorava que podia servir a seu rei em Salvador, Marvão, Luanda, Macau ou Goa. Sabia-se parte de uma comunidade que ultrapassava o que tinha por horizonte. Já nós, nos dias de hoje, mostramo-nos distraídos para o fato de ter sido o Brasil parte de um império, o que fazia com que nossas fronteiras não ficassem em nosso continente nem parassem no nosso litoral: iam, ao norte, até os Açores e o rio Minho, e a leste, até Macau.
Temos consciência de que os sucessos na Metrópole nos regiam ou afetavam e de que os acontecimentos brasileiros lá repercutiam, mas tendemos a nos concentrar naqueles momentos de aceleração, mudança ou ruptura - como o descobrimento do ouro em Minas Gerais ou a invasão napoleônica - e a descuidar do fluir do dia-a-dia.
Deixamos de ter presentes as vinculações diretas entre os demais territórios do império, que podiam ser tão intensas que o sucedido num deles influía nos outros e até lhes determinava o comportamento. Assim, ao longo dos séculos 17 e 18, os interesses do Brasil comandavam de tal modo Luanda, que era no Brasil que a Metrópole recrutava muitos dos governadores de Angola. E era de Salvador que se controlava o ritmo do comércio com o pequenino, mas importantíssimo para o Brasil, forte de São João Batista de Ajudá.
Estamos ainda à espera de que se investigue como se interinfluenciavam e entreteciam as administrações da Metrópole, da Índia portuguesa, de Angola e do Brasil, e sobre a história individual daqueles que passaram os seus dias a mudar de terras e de oceanos. Pois os homens do Brasil foram trabalhar em Moçambique e na Índia, passando antes, muitas vezes, por Lisboa, Guiné, Cabo Verde, São Tomé ou Angola. Goeses e cabo-verdianos fizeram percursos semelhantes antes de chegar ao Brasil. Ameríndios serviram como soldados em Angola. E escravos embarcados nos mais diversos pontos da África não pararam de descer, durante 300 anos, em terras brasileiras.
O quotidiano de cada um desses tratos de terra que formavam um império, distantes uns dos outros pela demora das viagens, se foi alterando, ao longo dos séculos, ao influxo do movimento livre ou forçado de pessoas, um movimento que naturalmente se acompanhava pelo de animais, plantas, objetos, formas de vida familiar e modos de comportamento na cozinha, na varanda, na sala, no quarto e na rua. Durante todo esse tempo, encostaram-se, somaram-se e até se confundiram, nas terras banhadas pelo Índico e o Atlântico, distintos modos de vida, e mudaram-se jeitos de ser, e impregnaram-se de África e de Ásia as casas portuguesa e brasileira, e de Europa e de América as moradas africanas, a tal ponto que nos esquecemos, e não só aqui mas também do outro lado do mar, de que a canja era um prato indiano, a farinha de mandioca, uma comida tupi, e de que foi na China que aprendemos a empinar papagaios de papel.
Não seria demais imaginar-se como um primeiro projeto cultural coletivo dos países de língua oficial portuguesa a história das permutas que se fizeram ao longo do grande arco que vinculava Macau a Lisboa, da qual emergiria naturalmente a história social do que foi o império lusitano. Essa história exige a multiplicidade das perspectivas. Não basta que saibamos quão diferentes foram as declarações guerra, em 1665, de D. Antônio, rei do Congo, e de André Vidal de Negreiros , chefe dos portugueses; cumpre que aprendamos a ler cada uma delas com os olhos de ambos os contendores e também com os dos outros reis do que hoje é Angola.
Da Guiné vê-se Cabo Verde de um ângulo distinto do de Portugal. E do Brasil ainda mais, porque, até quase os primeiros quinze anos da segunda metade do século 20, quando os progressos da técnica, em especial o avião a jato, dispensaram a escala cabo-verdiana para reabastecimento nas viagens transatlânticas -, o arquipélago funcionou como traço-de-união entre o Brasil e a Europa. Ainda está por fazer-se o inventário das influências recíprocas entre o Brasil e Cabo Verde - influências que foram muitas e intensas, até no plano literário, com a presença do regionalismo nordestino nos escritores de Claridade - e ainda está também por escrever-se a crônica do recrutamento de marinheiros cabo-verdianos pela marinha mercante brasileira e de como depois ancoravam em famílias do Recife, bem como a dos marujos brasileiros que se deixavam ficar no arquipélago.
Também está a merecer que se relate com pormenores, e de diferentes pontos de observação, como era, em São Tomé, o duro aprendizado dos escravos das mais distintas origens que já chegavam às Américas ladinos, isto é, acostumados às abominações e às exigências dos brancos e a se expressarem em português.
A entrelaçar-se com a história de matrimônios de culturas corre, portanto, uma outra, conflituosa, destruidora, cruel. Como o dos outros povos, o nosso passado não está despido de crueldade, e precisamos conhecê-lo também pelos enfoques dos outros, para dolorosamente melhor aprender a com ele nos reconciliar. É difícil discordar de Carlos Drummond de Andrade, quando escreveu que ''toda história é remorso''. Sabemos que a nossa é feita de conflitos e violência - a começar pela violência que a marca de ponta a ponta: a escravidão racial, com suas seqüelas.
Mas, como a história de outros povos, ela também possui áreas luminosas. E tanto os seus encontros venturosos, as suas criações afortunadas, quanto as suas colisões e rompimentos não fazem parte, em geral, apenas da história do Brasil, mas também dos demais povos que hoje têm por idioma oficial o português. Ainda que cada qual deles se veja com um passado próprio, as aventuras e desventuras os vincularam entre si ao longo dos séculos, e devem, para serem plenamente entendidas, ser enfeixadas numa história comum ou, quando menos, num conjunto de histórias comunicantes.

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro - RJ) em 24/03/2004

quarta-feira, 18 de março de 2009

THE REVOLUTION WILL NOT BE TELEVISED


You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.
The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by the
Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
The revolution will not give your mouth sex appeal.
The revolution will not get rid of the nubs.
The revolution will not make you look five pounds
thinner, because the revolution will not be televised, Brother.
There will be no pictures of you and Willie May
pushing that shopping cart down the block on the dead run,
or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
NBC will not be able predict the winner at 8:32
or report from 29 districts.
The revolution will not be televised.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of Whitney Young being
run out of Harlem on a rail with a brand new process.
There will be no slow motion or still life of Roy
Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the proper occasion.
Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
Junction will no longer be so damned relevant, and
women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day.
The revolution will not be televised.
There will be no highlights on the eleven o'clock
news and no pictures of hairy armed women
liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
The theme song will not be written by Jim Webb,
Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
The revolution will not be televised.
The revolution will not be right back after a message
bbout a white tornado, white lightning, or white people.
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
The revolution will not go better with Coke.
The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
The revolution will put you in the driver's seat.
The revolution will not be televised, will not be televised,
will not be televised, will not be televised.
The revolution will be no re-run brothers;
The revolution will be live.
Gil Scott-Heron

segunda-feira, 9 de março de 2009

GUY DEBORD....Tesis sobre la revolución cultural

La cultura es la esfera general del conocimiento y de las representaciones de lo vivido en la sociedad histórica dividida en clases; lo que viene a decir que es el poder de generalización existiendo aparte, como división del trabajo intelectual y trabajo intelectual de la división. La cultura se ha desprendido de la unidad de la sociedad del mito, cuando "el poder de unificación desaparece de la vida del hombre y los contrarios pierden su relación y su interacción vivientes y adquieren autonomía..." (Diferencia entre los sistemas de Fichte y Schelling). Al ganar su independencia, la cultura comienza un movimiento imperialista de enriquecimiento que es al mismo tiempo el ocaso de su independencia. La historia que crea la autonomía relativa de la cultura y las ilusiones ideológicas sobre esta autonomía se expresan también como historia de la cultura. Y toda la historia conquistadora de la cultura puede ser comprendida como la historia de la revelación de su insuficiencia, como una marcha hacia su autosupresión. La cultura es el lugar donde se busca la unidad perdida. En esta búsqueda de la unidad, la cultura como esfera separada está obligada a negarse a sí misma.

TESIS SOBRE LA REVOLUCIÓN CULTURAL

1-El fin tradicional de la estética es hacer sentir, en la privación y la ausencia, algunos elementos pasados de la vida que escaparían de la confusión de las apariencias a través de una mediación artística, siendo por tanto la apariencia la que sufre el reinado del tiempo. El logro estético se mide por una belleza que es inseparable de la duración y tiende incluso a reclamar la eternidad. El fin de los situacionistas es la participación inmediata en una abundancia pasional de vida mediante la transformación de momentos efímeros conscientemente dispuestos. La realización de estos momentos sólo puede darse como efecto pasajero. Los situacionistas consideran la actividad cultural, desde el punto de vista de la totalidad, como un método de construcción experimental de la vida cotidiana que puede desarrollarse permanentemente con la ampliación del ocio y la de-saparición de la división del trabajo (empezando por la del trabajo artístico).

2-El arte puede dejar de ser una relación de las sensaciones para convertirse en una organización directa de sensaciones superiores: se trata de producirnos a nosotros mismos, y no cosas que no nos sirvan.

3-Mascolo está en lo cierto al decir (Le Communisme) que la reducción de la jornada laboral por la dictadura del proletariado es "la mejor prueba que puede dar de su autenticidad revolucionaria". En efecto, "si el hombre es una mercancía, si es tratado como un objeto, si las relaciones generales entre los hombres son relaciones entre cosas, es porque se puede comprar su tiempo." Sin embargo, Mascolo se apresura demasiado al concluir "que el tiempo de un hombre libremente empleado" se emplea siempre bien, y que "el comercio del tiempo es el único mal." No hay libertad en el empleo del tiempo sin la posesión de los instrumentos modernos para la construcción de la vida cotidiana. El uso de tales instrumentos marcará el salto de un arte revolucionario utópico a un arte revolucionario experimental.

4-Una asociación internacional de situacionistas puede considerarse como una unión de trabajadores de un sector avanzado de la cultura, o más exactamente de todos aquellos que reivindican el derecho a un trabajo ahora impedido por las condiciones sociales. Por lo tanto como un intento de organización de revolucionarios profesionales de la cultura.

5-Nos hallamos separados en la práctica del control real de los poderes materiales acumulados en nuestro tiempo. La revolución comunista no ha tenido lugar y nos encontramos todavía en el marco de la descomposición de las viejas superestructuras culturales. Henri Lefebvre ve correctamente que esta contradicción está en el centro de una discordancia específicamente moderna entre el individuo progresista y el mundo, y llama romántico-revolucionaria a la tendencia cultural que se funda sobre esta discordancia. El error de la concepción de Lefebvre consiste en hacer de la simple expresión del desacuerdo un criterio suficiente para una acción revolucionaria dentro de la cultura. Lefebvre renuncia de antemano a cualquier experimento que tienda a un cambio cultural profundo, y queda satisfecho con un contenido: la conciencia del posible-imposible, que puede expresarse sin importar qué forma adopte dentro del marco de la descomposición.

6-Quienes quieren superar el viejo orden establecido en todos sus aspectos no pueden ligarse al desorden presente, ni siquiera en la esfera de la cultura. Deben luchar sin demora, también en el campo cultural, por la aparición concreta del orden móvil del futuro. Esta posibilidad, presente ya entre nosotros, desacredita toda expresión dentro de las formas culturales conocidas. Todas las formas de pseudo-comunicación deben llevarse hasta su completa destrucción, para llegar un día a la comunicación real y directa (al uso, en nuestra hipótesis, de medios culturales superiores: la situación construida). La victoria será para quienes sepan crear el desorden sin amarlo.

7-En el mundo de la descomposición cultural podemos probar nuestras fuerzas, pero no emplearlas. La tarea práctica de superar nuestro desacuerdo con el mundo, de vencer la descomposición mediante construcciones más elevadas, no es romántica. Seremos "revolucionarios románticos", en el sentido de Lefebvre, precisamente en la medida en que fracasemos.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

"A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência."
WALTER BENJAMIN

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

MALCOM X....................................

"Quem crava uma faca de 20 centímetros nas costas de um homem e depois a puxa 15 centímetros não pode dizer que está fazendo progresso.
Não importa quanta deferência, não importa quanto reconhecimento os brancos demonstrem para comigo; no que me diz respeito, enquanto isso não for demonstrado para cada um dos nossos neste país, não existe para mim."
MALCOM X, 1964.

Blowing Down(DIGABLE PLANETS)

keep black movement and castle keep rockin
plus hang with my niggas and hit the dope spots
play in the corners and maybe even boogie
till the sun come up or a gun come up
shootin at the breeze the local emcees
stylin wit ease
doin it like the sun is in here
cause we bomb rhyme sayin
butter ain’t playin

blowin out, blowin out!!!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

"No que me diz respeito, proporia distinguir entre duas espécies de filósofos: a espécie dos filósofos-curandeiros e a dos filósofos-médicos. os primeiros são compassivos e ineficazes, os segundos eficazes e implacáveis. Os primeiros não têm nada de sólido a opor à angústia humana, mas dispõem de uma gama de falsos remédios capazes de adormecê-la mais ou menso durante muito tempo, capazes não de curar o homem, mas suficientes para fazê-lo ir vivendo. Os segundos dispõem do verdadeiro remédio e da única vacina (quero dizer, a administração da verdade);mas este é de tal força que, se eventualmente reconforta as naturezas saudáveis, tem por outro e principal efeito o de fazer perecer imediatamente as naturezas fracas. Aliás, este é um fato paradoxal e notável, embora-tanto quanto eu saiba-pouco observado: o de só ser operante com relação aos não-doentes, aos que dispõem, ao menos, de um certo fundo de saúde. Do mesmo modo que a filosofia digna de credibilidade só é entendida pelos que a sabiam um pouco de antemão e, assim, não necessitam verdadeiramente dela, a medicina não pode e não poderá jamais curar senão os saudáveis".
CLÉMENT ROSSET
"A necessidade de uma fé forte não é prova de fé forte, é, isso sim, o contrário.Se alguém tem essa fé, pode permitir-se o luxo do ceticismo."
NIETZSCHE, O crepúsculo dos ídolos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009


"Desde os primórdios da nação, os norte-americanos brancos vêm sendo acometidos por uma profunda incerteza íntima quanto a quem realmente são. Uma das maneiras adotadas para simplificar a resposta tem sido valer-se da presença dos norte-americanos negros, usando-a como um indicador, um símbolo dos limites, uma metáfora para o "forasteiro". Muitos brancos podiam observar a posição social dos negros e sentir que a cor proporcionava um aferidor simples e confiável para determinar em que medida a pessoa era ou não americana. Talvez por isso, um dos primeiros epítetos aprendidos por muitos imigrantes europeus ao desembarcar tenha sido o termo pejorativo nigger-esse termo os fazia sentir-se americanos instantaneamente. Mas essa é uma mágica capciosa. Apesar da diferença racial e do status social, havia nos negros algo indisputavelmente americano que não apenas suscitava dúvidas acerca do sistema de valores do homem branco mas também despertava a perturbadora suspeita de que, não importa o que mais seja o verdadeiro norte-americano, ele é também, de algum modo, negro."
Ralph Ellison, "WHAT AMERICA WOULD BE LIKE WITHOUT BLACKS",1970.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Existe mesmo a possibilidade de escolher entre dois caminhos?

Com a ideologia hegemônica do pensamento único imperando de modo globalizado, será que existe espaço de escolha, margem de manobra para o debate e a possibilidade que tal movimento promove na reflexão sobre as inúmeras possibilidades disponíveis para a promoção de uma vida realmente digna de ser designada com tal nome?
Quando essa questão nos invade, podemos claramente pensar nas palavras do filósofo Slavoj Zizek, cometando com a sua costumeira e contundente lucidez sobre a lógica oculta da ideologia hegemônica:
" Você tem liberdade de escolher o que quiser, desde que faça a escolha certa (...) E não é exatamente o que se dá com a escolha entre "democracia e fundamentalismo?" Não é verdade que, nos termos desta escolha, é simplesmente escolher (...) O que é problemático na forma como a ideologia dominante nos impõe esta escolha nao é o fundamentalismo, mas a própria democracia: como se a única alternativa ao "fundamentalismo" fosse o sistema político da democracia parlamentar liberal".

Alexandre Farias

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

“Racismo e capitalismo são faces da mesma moeda”.
"A arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido"
Steve Biko.

Fricções étnicas

À primeira vista pode parecer estranho que a visão do anti-semita deva estar relacionada à do negrofóbico. Foi meu professor de filosofia, nascido nas Antilhas, quem um dia me lembrou disso: "Sempre que ouvir alguém agredir o judeu, preste atenção, porque ele está falando a seu respeito". E descobri que ele estava universalmente certo-com isso quis dizer que eu era atingido em meu corpo e meu coração por aquilo que se fazia a meu irmão. Mais tarde percebi que ele queria dizer de um modo bem simples que um anti-semita é inevitavelmente um anti-negro
Frantz Fanon

INTO THE EYE OF A HURRICANE

I don´t have any more words to say
So,why ask me?
Words just fadded into the slight smoke of obscurity
Right into the shades of a wishing well of a secular brightness
sliced under the meat thorns of a dinosaur body

If to say so
Why jump into the waters?
Take life risks near the carnal death of a transcendental experience
Taken by an ancient ghost mariner
Crash on the creeping rocks of a beauty maiden
darkened soul of an iron rusted empytness
Alexandre Farias

sábado, 7 de fevereiro de 2009

STRANGE FRUIT

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.



FRUTA ESTRANHA
Árvores do sul produzem uma fruta estranha,
Sangue nas folhas e sangue nas raízes,
Corpos negros nadando na brisa do sul,
Fruta estranha penduradas nos álamos.

Cena pastoril do valente sul,
Os olhos inchados e a boca torcida,
Perfume de magnólias, doce e fresca,
Depois o repentino cheiro de carne queimada.

Aqui está a fruta para os corvos arrancarem,
Para a chuva recolher, para o vento sugar,
Para o sol apodrecer, para as árvores deixarem cair,
Aqui está a estranha e amarga colheita.

Tradução:Alexandre Farias

"Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado."
James Baldwin

SOBRE O CAPITALISMO MUNDIAL....Marx continua acertando

"Das Kapital ist verstorbne arbeit,
die sich nur vampyrmässig belebt
durch Einsaugnung lebendiger
Arbeit, und um so mehr lebt, je
mehr sie davon einsaugt."
(Karl Marx, Das Kapital,MEW,Livro I,"Der Arbeitsag",p.247)

"O Capital é trabalho morto que,
como vampiro, somente vive
sugando trabalho vivo, e vive mais
quanto mais trabalho vivo suga."
(Karl Marx, O Capital, Livro I, "A jornada de trabalho", p.247 da edição alemã)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Don’t Just Do Something, Talk


Slavoj Žižek


One of the most striking things about the reaction to the current financial meltdown is that, as one of the participants put it: ‘No one really knows what to do.’ The reason is that expectations are part of the game: how the market reacts to a particular intervention depends not only on how much bankers and traders trust the interventions, but even more on how much they think others will trust them. Keynes compared the stock market to a competition in which the participants have to pick several pretty girls from a hundred photographs: ‘It is not a case of choosing those which, to the best of one’s judgment, are really the prettiest, nor even those which average opinion genuinely thinks the prettiest. We have reached the third degree where we devote our intelligence to anticipating what average opinion expects the average opinion to be.‘ We are forced to make choices without having the knowledge that would enable us to make them; or, as John Gray has put it: ‘We are forced to live as if we were free.’


Joseph Stiglitz recently wrote that, although there is a growing consensus among economists that any bailout based on Henry Paulson’s plan won’t work, ‘it is impossible for politicians to do nothing in such a crisis. So we may have to pray that an agreement crafted with the toxic mix of special interests, misguided economics and right-wing ideologies that produced the crisis can somehow produce a rescue plan that works – or whose failure doesn’t do too much damage.’ He’s right: since markets are effectively based on beliefs (even beliefs about other people’s beliefs), how the markets react to the bailout depends not only on its real consequences, but on the belief of the markets in the plan’s efficiency. The bailout may work even if it is economically wrong.


There is a close similarity between the speeches George W. Bush has given since the crisis began and his addresses to the American people after 9/11. Both times, he evoked the threat to the American way of life and the necessity of fast and decisive action to cope with the danger. Both times, he called for the partial suspension of American values (guarantees of individual freedom, market capitalism) in order to save the same values.


Faced with a disaster over which we have no real influence, people will often say, stupidly, ‘Don’t just talk, do something!’ Perhaps, lately, we have been doing too much. Maybe it is time to step back, think and say the right thing. True, we often talk about doing something instead of actually doing it – but sometimes we do things in order to avoid talking and thinking about them. Like quickly throwing $700 billion at a problem instead of reflecting on how it came about.


On 23 September, the Republican senator Jim Bunning called the US Treasury’s plan for the biggest financial bailout since the Great Depression ‘un-American’:



Someone must take those losses. We can either let the people who made bad decisions bear the consequences of their actions, or we can spread that pain to others. And that is exactly what the Secretary proposes to do: take Wall Street’s pain and spread it to the taxpayers . . . This massive bailout is not the solution, it is financial socialism, and it is un-American.


Bunning was the first publicly to give the reasoning behind the GOP revolt against the bailout plan, which climaxed in its rejection on 29 September. The resistance was formulated in terms of ‘class warfare’, Wall Street against Main Street: why should we help those responsible (‘Wall Street’) and let ordinary borrowers (on ‘Main Street’) pay the price for it? Is this not a clear case of what economists call ‘moral hazard’? This is the risk that someone will behave immorally because insurance, the law or some other agency protects them against any loss that his behaviour might cause: if I am insured against fire, for example, I might take fewer fire precautions (or even burn down my premises if they are losing me money). The same goes for big banks, which are protected against big losses yet able to retain their profits.


That the criticism of the bailout plan came from conservative Republicans as well as the left should make us think. What left and right share in this case is their contempt for big speculators and corporate managers who profit from risky decisions but are protected from failures by ‘golden parachutes’. In this respect, the Enron scandal of January 2002 can be interpreted as an ironic commentary on the notion of a risk society. Thousands of employees who lost their jobs and savings were certainly exposed to risk, and had little choice in the matter. However, the top managers, who knew about the risk and also had the opportunity to intervene in the situation, minimised their exposure by cashing in their stocks and options before the bankruptcy. So while it is true that we live in a society that demands risky choices, it is one in which the powerful do the choosing, while others do the risking.


If the bailout plan really is a ‘socialist’ measure, it is a very peculiar one: a ‘socialist’ measure whose aim is to help not the poor but the rich, not those who borrow but those who lend. ‘Socialism’ is OK, it seems, when it serves to save capitalism. But what if ‘moral hazard’ is inscribed in the fundamental structure of capitalism? The problem is that there is no way to separate the welfare of Main Street from that of Wall Street. Their relationship is non-transitive: what is good for Wall Street isn’t necessarily good for Main Street, but Main Street can’t thrive if Wall Street isn’t doing well – and this asymmetry gives an a priori advantage to Wall Street.


The standard ‘trickle-down’ argument against redistribution (through progressive taxation etc) is that instead of making the poor richer, it makes the rich poorer. However, this apparently anti-interventionist attitude actually contains an argument for the current state intervention: although we all want the poor to get better, it is counter-productive to help them directly, since they are not the dynamic and productive element; the only intervention needed is to help the rich get richer, and then the profits will automatically spread down to the poor. Throw enough money at Wall Street, and it will eventually trickle down to Main Street. If you want people to have money to build, don’t give it to them directly, help those who are lending it to them. This is the only way to create genuine prosperity – otherwise, the state is merely distributing money to the needy at the expense of those who create wealth.


It is all too easy to dismiss this line of reasoning as a hypocritical defence of the rich. The problem is that as long as we are stuck with capitalism, there is a truth in it: the collapse of Wall Street really will hit ordinary workers. That is why the Democrats who supported the bailout were not being inconsistent with their leftist leanings. They would fairly be called inconsistent only if we accept the premise of Republican populists that capitalism and the free market economy are a popular, working-class affair, while state interventions are an upper-class strategy to exploit hard-working ordinary people.


There is nothing new in strong state interventions into the banking system and the economy in general. The meltdown itself is the result of such an intervention: when, in 2001, the dotcom bubble burst, it was decided to make it easier to get credit in order to redirect growth into housing. Indeed, political decisions are responsible for the texture of international economic relations in general. A couple of years ago, a CNN report on Mali described the reality of the international ‘free market’. The two pillars of the Mali economy are cotton in the south and cattle in the north, and both are in trouble because of the way that Western powers violate the same rules that they impose so brutally on Third World nations. Mali produces cotton of the highest quality, but the US government spends more money to support its cotton farmers than the entire state budget of Mali, so it is small wonder that Mali can’t compete. In the north, the European Union is the culprit: the EU subsidises every single cow to the tune of five hundred euros a year. The Mali minister for the economy said: we don’t need your help or advice or lectures on the beneficial effects of abolishing excessive state regulations; just, please, stick to your own rules about the free market and our troubles will be over. Where are the Republican defenders of the free market here? Nowhere, because the collapse of Mali is the consequence of what it means for the US to put ‘our country first’.


What all this indicates is that the market is never neutral: its operations are always regulated by political decisions. The real dilemma is not ‘state intervention or not?’ but ‘what kind of state intervention?’ And this is true politics: the struggle to define the conditions that govern our lives. The debate about the bailout deals with decisions about the fundamental features of our social and economic life, even mobilising the ghost of class struggle. As with many truly political issues, this one is non-partisan. There is no ‘objective’ expert position that should simply be applied: one has to take a political decision.


On 24 September, John McCain suspended his campaign and went to Washington, proclaiming that it was time to put aside party differences. Was this gesture really a sign of his readiness to end partisan politics in order to deal with the real problems that concern us all? Definitely not: it was a ‘Mr McCain goes to Washington’ moment. Politics is precisely the struggle to define the ‘neutral’ terrain, which is why McCain’s proposal to reach across party lines was pure political posturing, a partisan politics in the guise of non-partisanship, a desperate attempt to impose his position as universal-apolitical. What is even worse than ‘partisan politics’ is a partisan politics that tries to mask itself as non-partisan: by imposing itself as the voice of the Whole, such a politics reduces its opponents by making them agents of particular interests.


This is why Obama was right to reject McCain’s call to postpone the first presidential debate and to point out that the meltdown makes a political debate about how the two candidates would handle the crisis all the more urgent. In the 1992 election, Clinton won with the motto ‘It’s the economy, stupid!’ The Democrats need to get a new message across: ‘It’s the POLITICAL economy, stupid!’ The US doesn’t need less politics, it needs more.



Slavoj Žižek is a dialectical-materialist philosopher and psychoanalyst. He also co-directs the International Centre for Humanities at Birkbeck College. His most recent book is In Defence of Lost Causes (Verso).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

"O famoso cachimbo...
Como fui censurado por isso!
E entretanto...
Vocês podem encher de fumo,
o meu cachimbo?
Não, não é mesmo?
Ela é apenas uma representação.
Portanto,
se eu tivesse escrito sob meu quadro:
"isto é um cachimbo",
eu teria mentido."

René Margritte