Tema: “O problema da citação e a teoria lingüística de Tokieda Motoki”.
O professor Naoki Sakai (universidade de Cornell) abordou a construção teórica efetuada por um dos mais proeminentes filósofos japoneses, oriundo da universidade de Tóquio, chamado Tokieda Motoki. Tokieda realizou estudos na Coréia, aonde procuro avaliar as relações que se estabeleciam entre língua e etnia, particularmente pensando sobre a língua japonesa no sentido daqueles que não são japoneses, mas falam o idioma nipônico, procurando entender o quanto essa relação poderia influenciar na visão das diversas comunidades que coabitavam naquele país, bem como a visão de mundo desses agentes sociais.
Costumamos nos referir a um povo através do idioma que este mesmo povo utiliza para se comunicar. Por exemplo, quando nos referimos aos ingleses, dizemos the English people, aos japoneses como, the japanese people, sempre relacionando o povo a língua que eles falam. A pergunta que podemos fazer em épocas de intensa mundialização é: “e quanto às pessoas não inglesas (por exemplo) que falam inglês? Qual a relação que poderia ser estabelecida entre identidade lingüística e identidade étnica?” vemos, portanto, que para definir identidade e a unidade étnica exige-se muito mais do que a categoria lingüística da qual determinado povo faz uso para se expressar, o que nos faz perceber o quanto língua e identidade étnica são inseparáveis das questões políticas (colonialismo, expansionismo). Na verdade, tais questões políticas acabaram por configurar, através da constituição dos Estados nacionais (de uma forma ou de outra, em menor ou maior grau sempre alicerçada na imposição da violência), o que viria a ser entendido e aceito como idiomas nacionais, integrando paulatinamente a unidade nacional e identidade lingüística.
Tokieda Motoki, filósofo estudado pelo professor Sakai, dedicou-se aos estudos vernaculares objetivando transpor as análises que partem do idioma japonês como derivado do idioma chinês, alcançando o campo dos esquemas mitológicos (língua yamatsu), desvencilhando-se das influências traumáticas do colonialismo e do chugokugo (idioma chinês). Os estudos vernaculares de Tokieda se constituíam em estudos de inúmeros idiomas que eram falados antes do expansionismo chinês, lançando mão dos estudos realizados por Katsutoshi Ueda quanto à questão do Kokugo (língua do país). Com a constituição do Estado moderno, surge a noção ampla de Kokugo (idioma nacional) para denominar de modo geral a língua que caracteriza um povo, no caso, o povo japonês.
No entendimento desta constituição ideológica dos conceitos é que devemos procurar nas extremidades (realizando uma perversão temporal) que estão fora deste espaço configurado pelo expansionismo chinês o sentido da língua japonesa, da real “japonesidade”, pontos que nos possibilitariam compreender as bases ideológicas que forneceram o arcabouço do que temos hoje como idioma japonês (ou mesmo de povo japonês).
A questão a ser levantada é: “existe o idioma? Que circunstâncias nos fazem pensar na existência de um idioma?”. O idioma não existe em si, por si, no intuito de se definir uma etnia (o que seria uma perda de rumo ou de direção). A própria língua inglesa nos dá um exemplo tácito de que devemos destruir a definição dessa língua como característica de ser falada por um povo que se denominaria, através dessa particularidade lingüística, de ingleses.
Em seu livro intitulado, “japonês natimorto”, ele procuro analisar a língua como um “objeto” ainda não definido. Neste aspecto, fez uso da teoria Kantiana no sentido de estabelecer padrões para o uso controlado das idéias. Na crítica da razão pura, Kant funda a noção de “focus imaginário”, observando que inexiste a idéia em si, existindo somente o foco em si, ou seja, não existe o idioma como objeto. Como objeto pragmático o idioma inexiste, assim como a imagem refletida no espelho não constitui a imagem real do objeto. Não existe o idioma, existe o foco imaginário desse idioma, o que poderia ser definido como a metafísica do idioma.
Outra característica interessante levantada pelo professor Sakai é que a língua é criada dentro de uma performance, criando uma nova realidade a cada instante. Por exemplo: quando digo I marry you, estou desenvolvendo uma performance que vai criar uma nova realidade para o sujeito (no caso, para dois sujeitos: o eu e o outro eu de alguém).
Depois de todas estas questões analisadas, o professor nos leva a pensar a unidade da língua em oposição à identidade do povo, repensando a idéia cristalizada de que um povo se caracteriza pela língua que fala. Nesse caso, o idioma seria o ponto final (e não o início) dessa unidade ideologicamente estabelecida (ideologicamente, pois o método utilizado para distinguir uma etnia de outra tem a ver com as circunstâncias políticas da época). Dessa forma, as escolas são obrigadas a utilizar um formato previsto pelo ministério da educação, nos levando a crer que temos um ponto de unidade nacional, a língua. Essa ideologia vai acabar por definir a formação dos indivíduos, que constituirão as comunidades, as sociedades e a nação.
O idioma se constituiria pela sua relação com o povo que domina essa língua. No nihongo (língua japonesa) utilizamos a expressão midjika (estar perto de você) para designar a íntima relação entre a língua e o falante da mesma. O idioma é a existência que existe em função do sujeito (em japonês, shutai). Por isso, quando queremos nos referir a língua da nossa nação, dizemos Kokugo (língua pátria, língua da nação), ao invés de Nihongo (língua japonesa).
É caro pensar também a constituição do idioma e a sua influência na constituição do sujeito e a sua posição. Quando falo, “I am here”, temos o sujeito na frase indicando a sua posição geográfica no espaço. Quando esse mesmo sujeito expressa a sentença, “I think I am here”, temos o sujeito pensando sobre a sua posição geográfica do momento. Mas quando temos a frase, “I think I think I am here”, observamos o sujeito pensando sobre o seu pensamento de estar em uma determinada posição geográfica. A posição do sujeito se desdobra em duas, a saber: o supereu (um eu que enuncia um outro eu) e o eu-empírico (um eu intrínseco).