sexta-feira, 31 de julho de 2009

TERESINA

É que de lá eu vi a vida
Vi o sol onde o dia se esconde....

E que nas memórias são as ruas, as águas,suas lamas,cheiros e cores
e no sabor dos teus dedos,vejo o susto em que me pegou a natureza.
Mas as pegadas dos teus saltos atravessam o meu reino.

Esse mesmo reino besta que de nada me vale....
Essa mesma porta que se abre...
Quebrando a força da luz que cega meus olhos!


E é pelo caminho em frente a minha casa
que corro com os pés sem roupa
Pois sei que ja vens ao meu encontro,que já vais chegar.

Suspende-me pelos raios do teu dia,
Segura em mim a esperança dos teus dias,

que rola solta em meus planos,
O sangue claro do teu rio
As veias grossas do poty.

Em tuas lendas,em tuas estórias,meninos que comem a beira d'agua

vivi os mesmos sonhos,com os olhos em bugalhos,
sedentos de pedir em seus primeiros momentos.
E quando me adiantei nos dias,
segui as marcas do teu vestido e o couro de tuas sandálias.

E foi nas velhas estradas que ouvi as vozes em romaria,

os cantos dos santos em seus retraidos lamentos.
lágrimas espalhadas de saudades pelo andor....
Manchando meu corpo em linho branco,
dissolvendo a lama escura que compoem as contas do meu rosário.

Alexandre Farias

segunda-feira, 27 de julho de 2009

"Sou um escritor Ibo, porque essa é a minha cultura basica; nigeriano, africano e escritor...não,primeiro negro,depois escritor. Cada uma dessas identidades efetivamente invoca um certo tipo de compromisso de minha parte. Devo enxergar o que é ser negro-e isso significa ser suficientemente inteligente para saber como gira o mundo e como se saem os negros no mundo. É isso que significa ser negro. Ou africano-dá no mesmo: que significa a África para o mundo? Quando se vê um africano, o que significa isso para um homem branco?"
Chinua Achebe

terça-feira, 14 de julho de 2009

ÉTICA X CRISE ECONÔMICA

07/07/2009 - 14h09
Falta de ética e de Deus causaram crise econômica, diz papa

da BBC Brasil

O Vaticano divulgou, nesta terça-feira, a terceira encíclica do papa Bento 16, intitulada "Caridade na Verdade", onde o pontífice aponta os motivos que, segundo a Igreja Católica, teriam causado a atual crise econômica e indica a necessidade de reformas para colocar o homem no centro da economia.

A encíclica foi divulgada um dia antes da abertura, na cidade de L'Aquila, na Itália, da cúpula do G8, que reúne os líderes dos setepaíses mais ricos do mundo e a Rússia, e onde a crise econômica deve ser o principal tema de discussões.

No documento de 148 páginas, Bento 16 afirma que o desenvolvimento econômico é positivo, porque "tirou milhões de pessoas da miséria e deu a muitos países a possibilidade de se tornarem atores eficazes da política internacional".

Por outro lado, segundo o papa, a crise econômica atual evidenciou anomalias e problemas que devem ser analisados sem usar ideologias,que "simplificam a realidade".

Disparidades

Na avaliação do papa, a riqueza mundial cresce em termos absolutos, mas aumentam as disparidades e surgem novas pobrezas.

"Nos países ricos, novas categorias sociais empobrecem e, em áreas mais pobres, alguns grupos gozam de uma espécie de desenvolvimento consumista, que contrasta de modo inadmissível com situações de miséria desumanizadora. Continua o escândalo de desproporções revoltantes", diz o texto, preparado por Bento 16 e baseado na doutrina social da Igreja.

No documento, o papa aponta a "atividade financeira especulativa, fluxos migratórios muitas vezes provocados e depois mal administrados, e o uso desregrado dos recursos da terra", como alguns dos principaisfatores da crise.

Além disso, o papa afirma que a busca apenas do lucro, sem pensar no bem comum, pode destruir a riqueza e gerar mais pobreza.

"A economia precisa de uma ética amiga das pessoas para um correto funcionamento.(...). A crise atual mostra que os princípios de ética social, transparência, honestidade e responsabilidade não podem ser negligenciados", afirma o papa na encíclica.

De acordo com o documento, a Igreja não sugere soluções técnicas para os problemas desencadeados pela crise que afeta a economia internacional, mas indica a doutrina social da Igreja como guia e recorda aos governantes que o "primeiro capital a ser preservado e valorizado é o homem, em sua integridade".

"A Igreja não tem soluções técnicas a oferecer, mas uma missão de verdade a cumprir para uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade e vocação ", diz o texto.

Deus

No segundo dos seis capítulos da encíclica, o papa afirma que a prioridade deve ser a criação de empregos e o acesso ao trabalho, assim como maiores garantias aos trabalhadores, cujos direitos estão em risco devido à "competição internacional das empresas e ao uso especulativo dos recursos financeiros".

Na avaliação do papa, há condições para uma grande redistribuição da riqueza, mas "projetos egoístas e protecionistas" podem frear a difusão do bem estar.

"A crise atual exige mudanças profundas para as empresas, que não podem ter como objetivo apenas os interesses dos proprietários e as indicações dos acionistas, mas devem se encarregar da comunidade local".

Segundo o papa, há uma relação fundamental entre o desenvolvimento econômico e social e o ponto de vista religioso. O evangelho, segundo ele, é "imprescindível" para construir uma sociedade justa e livre.

"Sem a perspectiva de uma vida eterna e sem Deus, o desenvolvimento é negado e desumanizado", escreve Bento 16.

Organismos internacionais

Bento 16 sugere ainda a necessidade de reformar alguns organismos internacionais, para que sejam mais eficientes no combate à fome e no gerenciamento da globalização.

"É urgente a presença de uma verdadeira autoridade política mundial", escreve o papa.

Segundo o pontífice, os organismos internacionais deveriam se interrogar a respeito da real eficácia de seus "caros aparatos burocráticos".

"Às vezes, os pobres servem para manter caras organizações burocráticas. É preciso uma grande transparência sobre os fundos recebidos", diz a encíclica.

Segundo Bento 16, o mercado não é negativo, mas não pode cumprir sua função econômica sem a solidariedade e confiança recíprocas, e deve ter como objetivo o bem comum, que deve ser responsabilidade principalmente da comunidade política.

Natalidade

Na encíclica, o papa volta a defender a vida, desde a concepção até a morte natural, e critica os programas de controle demográfico, como parte de medidas para desenvolvimento econômico.

"Em várias partes do mundo, há práticas de controle demográfico que chegam a impor o aborto. Há uma mentalidade contra a natalidade nos países desenvolvidos que se tenta transmitir a outros Estados, como se fosse um progresso cultural", escreve o papa.

Bento 16 afirma que as causas do subdesenvolvimento não são de ordem material, mas, sobretudo, "a falta de fraternidade entre homens e povos" que, por causa da globalização crescente, "são vizinhos, mas não irmãos".

Em sua opinião é necessária uma mudança de mentalidade e de estilo de vida.

"Menos hedonismo e consumismo e mais respeito aos recursos ambientais e à vida", sugere o papa.

OS SAPATOS DE ETIENNE

Etienne Samain, o antropólogo da Unicamp que resgatou a cultura dos índios Urubu-Kaapor, como antes já o fizera com os Kamayurá do Alto Xingu, pois o muitíssimo bem casado Etienne, belga de nascimento, brasileiro de coração, saibam todos, já foi padre. E dizem que muito bom padre - ele não esconde isso - se é que havia maus padres na fria e chuvosa Louvaine naquele ano santo de 1964.

Escolho 1964 não porque marcou o clímax da interminável guerra lingüística entre flamengos e francófones, da qual Louvaine era uma espécie de epicentro. Mas porque, como regente encarregado do pessoal francês e latino que aportava no Collegium Sancti Spiritus, Etienne protagonizou nessa época uma história digna de figurar num conto de Charles Dickens.

Pelo Sancti Spiritus passavam padres do mundo inteiro, para atualizar conhecimentos ou para fortalecer sua fé. Assim foi que um dia chegou um hóspede raro, raríssimo - o arcebispo de um país comunista. Novo ainda, rosto bem talhado, o visitante trazia nos olhos inteligentes a sombra das sucessivas guerras e invasões que haviam sangrado seu país. De pelo menos uma ele havia participado, quando ainda era civil. Mas agora, mesmo sendo um ícone da resistência cristã num país dilacerado física e espiritualmente, ele era sobretudo um cavalheiro, um homem simples que andava de chapéu de pároco de aldeia e batina preta comum, dispensando os broqueis do arcebispado.

E que cabeça! Dirigia-se aos franceses em francês, aos alemães em alemão, aos italianos em italiano, aos americanos em inglês. Se sua permanência em Louvaine fosse mais longa, era certo que logo estaria falando também flamengo, para que não pairassem dúvidas sobre sua neutralidade no imbróglio lingüístico da região.

Como o quarto de Etienne ficava colado ao quarto do hóspede, não faltou oportunidade de manterem, mais de uma vez, boa e viva conversação. Fizeram ótima camaradagem. O visitante chegou a elogiar o modo convincente como Etienne celebrava a Eucaristia. Em outra ocasião assegurou-lhe que a "igreja do silêncio", abafada pelo comunismo, constituía na verdade o maior espetáculo de fé neste século. Tudo conversa simples e amistosa que Etienne ia transportando para um diário que mantinha nesse tempo - o testemunho de uma época em que ainda estava em paz com suas convicções.

No dia seguinte caiu um temporal. Olhando pela janela, Etienne viu o arcebispo caminhando na chuva. Voltava de um passeio e estava completamente encharcado, com lama dos pés às orelhas. Seus sapatos esguichavam água pelas laterais e tinham-se descolado na altura do bico. Sapatos de país comunista, pensou Etienne. Pouco depois Etienne viu-o entrar e, como que experimentando a extensão de sua fé, indagou dele:

- Pode me dizer qual o tamanho do seu pé?

- Quarenta e dois.

O arcebispo sorriu ao constatar que calçavam o mesmo número.

- Tem mais de um par de sapatos?

Etienne tinha três.

- Pode me emprestar um?

Com imenso prazer Etienne colocou à frente dele os dois pares sobressalentes para que o arcebispo escolhesse o que mais lhe agradasse. O polonês sentou-se na cama de Etienne e escolheu o mais novo, o de cadarços.

Depois disso o destino traçou caminhos diferentes para eles. Primeiro deu a Etienne um vicariato em Châtelineau, depois uma cadeira de professor no seminário de Tournai e, por fim, colocou coisas surpreendentes em seu caminho: o Brasil, a paixão pelos índios e o desligamento da Igreja. E também Godelieve, nome que em bom português significa "amada de Deus", sua alegre e boa esposa.

Nunca mais voltou a ver pessoalmente o arcebispo, embora ouvisse falar dele com freqüência cada vez maior, nos anos seguintes, pois estava se tornando uma pessoa proeminente. Em 1967 fizeram-no cardeal de Cracóvia e em 1981, numa rua de Roma, sofreu um atentado a tiros. Já não o chamavam pelo nome de antigamente, mas sim por um criptônimo escolhido no topo de uma história de 305 papas.

Já vai longe o tempo em que, na pele de Karol Woytila, João Paulo II parou em Louvaine por alguns dias e saiu de lá com um par de sapatos novos, os sapatos de Etienne. Agora que ele volta ao Brasil para uma nova contagem de seu rebanho, acho muito justo que Etienne vá vê-lo e, chovendo ou não, possa dirigir-se a ele com toda a liberdade que se deve aos bons camaradas:

- Pode me dizer, Santidade, qual é o tamanho do seu pé?

Vão achar que Etienne ficou louco. Mas Karol Woytila certamente vai se lembrar e entender. Nesse ponto, é bom esclarecer que, ao emprestar os sapatos ao futuro Papa, Etienne desobrigou-o inteiramente da devolução. Mas, mesmo assim, pode ser que Sua Santidade descalce os sapatos na hora e os devolva a Etienne, como uma retribuição tardia. Espera-se que sejam de boa qualidade.

(Eustáquio Gomes)

Para o aniversário dos 25 anos de Pontificado de João Paulo 2, em 16 de outubro de 2003, enviei-lhe esta mensagem:

Meu amigo, Karol Wojtyla. Era Lovaina em novembro de 1964.Você era arcebispo de Cracóvia. Passava por Lovaina e se hospedava no Colégio do Espírito Santo, rua de Namur, número 40. O seu quarto de hospede confinava com ao meu. Tínhamos conversado longamente no decorrer da semana de tua visita. Entre uma e outra sessão do Concílio de Vaticano 2, você tinha voltado com o desejo de rever alguns velhos amigos da universidade. Não era ainda teu amigo. Creio que, desde então, eu me tornei o suficiente. Na Bélgica, chovia. Chovia muito. Ao final de uma tarde, você voltou ao "Espírito Santo" e os seus sapatos eram como barcos cheios de água. Você me perguntou se podia lhe emprestar um par de sapatos. Por felicidade, calçava uns 42 e tinha um par que lhe lembrava a forma de duas gotas d'água. Você quis, depois, me devolver esses sapatos. Eu os ofereci a você e, além disso, deixei na tua mala os dois volumes do La Pensée Communiste que acabava de publicar o cônego Grégoire [da Universidade de Lovaina]. Dois livros que eram vendidos, por debaixo dos panos, na livraria universitária muito próxima. Você me convidou, depois, à Cracóvia. Nunca consegui chegar até lá. O visto me foi sempre recusado. Os tempos - é verdade - mudaram muito. Temos um e outro viajado, aliás, muito mais do que Ulisses. Chega, assim, a hora de nossos sapatos descansarem um pouco e de tomarmos o tempo, todo o tempo de olhá-los. Que o meu desejo, minha paz e minha amizade possam te chegar.

(Etienne Samain)

Não recebi ainda uma resposta. Pouco importa. Tenho a certeza de que, um dia, deveremos nos reencontrar. Será no paraíso? Penso que não.

Contra o racismo: com muito orgulho e amor
Neusa Santos Souza
- Especial para o Correio da Baixada, em 13 de maio de 2008

Comemoramos hoje 120 anos de abolição da escravatura negra no Brasil. Abolição da escravidão quer dizer aqui fim de um sistema cruel e injusto que trata os negros como coisa, objeto de compra e venda, negócio lucrativo para servir à ambição sem fim dos poderosos. Abolição da escravatura quer dizer aqui fim da humilhação, do desrespeito, da injustiça. Abolição da escravatura quer dizer libertação.

Mas será que acabamos mesmo com a injustiça, com a humilhação e com o desrespeito com que o conjunto da sociedade brasileira ainda nos trata? Será que acabamos com a falta de amor-próprio que nos foi transmitido desde muito cedo nas nossas vidas? Será que já nos libertamos do sentimento de que somos menores, cidadãos de segunda categoria? Será que gostamos mesmo da nossa pele, do nosso cabelo, do nosso nariz, da nossa boca, do nosso corpo, do nosso jeito de ser? Será que nesses 120 de abolição conquistamos o direito de entrar e sair dos lugares como qualquer cidadão digno que somos? Ou estamos quase sempre preocupados com o olhar de desconfiança e reprovação que vem dos outros?

Cento e vinte anos de abolição quer dizer 120 de luta dos negros que, no Brasil, dia a dia, convivem com o preconceito e a discriminação racial. 120 de abolição quer dizer 120 de luta contra o racismo desse país que é nosso e que ajudamos a construir: não só com o trabalho, mas, sobretudo, com a cultura transmitida por nossos ancestrais e transformada e enriquecida por cada um de nós. 120 de abolição quer dizer 120 anos de luta contra todos os setores da sociedade e da vida cotidiana: nos espaços públicos e nos espaços privados; na Câmara, no Senado, nos sindicatos, no local de trabalho, nas escolas, nas universidades, no campo, na praça e em nossas casas. 120 de abolição quer dizer 120 de luta contra qualquer lugar em que houver um negro que ainda sofra preconceito e discriminação raciais. Nesses 120 anos, tivemos muitas vitórias, conquistamos muitas coisas, especialmente um amor por nós mesmos, uma alegria, um orgulho de sermos o que somos: brasileiros negros – negros de muitos tons de cor de pele, efeito da mistura, que é uma bela marca da sociedade brasileira.

Nesses 120 anos tivemos muitas conquistas e temos muito mais a conquistar. Nesses 120 anos vencemos muitas batalhas e temos muito mais a batalhar.

Nesses 120 anos comemoramos muitas vitórias e temos muito mais a comemorar.

A escravidão acabou, mas a nossa luta continua!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

CULTURA E RESISTÊNCIA:FRANTZ FANON, UMA VOZ DOS OPRIMIDOS

A divisão dos homens entre opressores e oprimidos, a desumanização indígena e o condicionamento do negro pelo branco. Contribuições fundamentais na primeira metade do século passado, as questões debatidas pelo psiquiatra e intelectual negro continuam atuais

Anne Mathieu

Foi como um estrondo no céu do pós-guerra. Em 1952, aparecia Pele negra, máscaras brancas [1], uma “interpretação psicanalítica do problema negro”.
A introdução proclamava: “É preciso libertar o homem de cor de si mesmo. Lentamente, porque há dois campos: o branco e o
negro”.

Seu autor, Frantz Fanon (1925-1961), foi ao mesmo tempo psiquiatra, ensaísta e militante político ao lado da Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), com a qual compartilhava a causa independentista [2]. Martinicano, faz parte do grupo de intelectuais negros cuja importância a França tem dificuldade em reconhecer, embora tratem de uma história comum a todos. anticolonialista radical, de escrita altamente literária e retórica, contribuiu para aclarar não só a história, mas também reflexões e debates contemporâneos. Preferem, no entanto, esquecê-lo sob o rótulo de “profeta fracassado [3]”.

A temática dos “dois campos” evocada por Fanon não é exclusivamente uma oposição entre essas duas cores de pele; inscrevem-se na antinomia “opressores” e “oprimidos”. Em sua visão, “uma sociedade é racista ou não é” e “o racismo colonial não difere de outros racismos”. Quando busca explicar uma ideia-força e mostrar o escândalo que representa, sua prosa poética e retórica se revela. além disso, para ele, a libertação dos indígenas passa pela recusa do mundo da interdição, pela afirmação do “eu” negado pelo colonizador, que os vê como uma massa disforme e serviçal: “o indígena é um ser aprisionado, o apartheid é apenas uma modalidade da compartimentação do mundo colonial. a primeira coisa que o indígena aprende é a manter-se em seu lugar, a não ultrapassar os limites. É por isso que seus sonhos são musculares, de ação, agressivos – Sonho que salto, nado, corro, escalo. Sonho que estou gargalhando, que atravesso o rio com um pulo, que sou perseguido por carros que nunca me alcançam. Durante a colonização, o colonizado não pára de se libertar entre as nove horas da noite e as seis da manhã”. Em outros tempos, Paul Nizan escrevia:
“Enquanto os homens não forem completos e livres, não caminharem por suas próprias pernas nas terras que lhes pertencem, sonharão à noite [4]”. opressão burguesa em 1933, opressão colonial em 1952.
Um libelo apaixonado
, Pele negra, máscaras brancas nos conduz ao universo atribuído ao negro que foi Sistematicamente condicionado pelo branco. São páginas apaixonantes nas quais a herança – apesar das divergências – dos oradores da negritude e do texto “Orfeu Negro” [5], de Jean-Paul Sartre, se faz sentir por meio de encadeamentos lexicais metafóricos e analíticos do corpo, do olhar. Fanon examina o corpo, talvez por isso escreveu: “a primeira versão deste livro foi ditada, andando de um lado para outro como um orador que improvisa; o ritmo do corpo em movimento, o sopro da voz recitando o estilo [6]”. Porém, a realidade supera a metáfora: “No primeiro olhar branco, ele sentiu o peso de sua melanina”. Séculos de escravidão e colonização determinaram um olhar sobre o outro do qual é difícil para não dizer impossível, se despojar: “Quando me Amam, dizem que é apesar da cor da minha pele. Quando me detestam, se justificam dizendo que não é pela cor da pele. Em uma ou outra situação, sou prisioneiro de um círculo infernal”.

O racismo se traduz também na designação do negro, submetido à conotação ancestral de sua cor, que se tornou evidência, quase essência: “O negro, o obscuro, as sombras, as trevas, a noite, as profundezas abissais, denegrir a reputação de alguém; e do outro lado: a mirada clara da inocência, a pomba branca da paz, a luz ofuscante, paradisíaca”. A linguagem não pode expurgar essas conotações, que aparecem também na religião: “O pecado é negro como a virtude é branca”. A análise não era nova naquele momento, mas, de uma obra à outra, Fanon foi mais longe. Seu último livro, Os condenados da terra (1961) [7], demonstra que a “compartimentação” da sociedade colonial e racista gera, Obrigatoriamente, uma linguagem racista: “Por vezes, o maniqueísmo alcança o limite de sua lógica e desumaniza o colonizado”.
Dito de outra forma, como denunciou Jean-Paul Sartre durante a guerra da Argélia [8], o sistema colonial cria um “sub-homem”.

Fanon prossegue: “Falando claramente, [o maniqueísmo] animaliza. Faz-se alusão aos Movimentos arrastados durante o trabalho, ao cheiro queemana das vilas indígenas, às hordas, ao fedor, à reprodução desenfreada, às gesticulações. Demografia galopante, massas histéricas, rostos nos quais não há qualquer traço de humanidade, corpos obesos que não se parecem com nada, preguiça sob o sol, ritmo vegetal, todas essas expressões fazem parte do vocabulário colonial”.
E vale mencionar que elas ainda não desapareceram totalmente de nossas latitudes, como lembra a canção Lebruit et e l’odeur [o barulho e ocheiro] (1995) [9], do grupo Zebda.

A “desumanização” do indígena justifica o tratamento ao qual é submetido: “Disciplinar, vestir, dominar e pacificar são as expressões mais utilizadas pelos colonialistas em territórios ocupados”. A guerra da Argélia nada mais é que a continuação paradoxal de um sistema que se baseia na “força” e no desprezo. Dessa forma, a introdução de L’an V de la révolution algérienne [O ano V da revolução argelina] (1959) [10] ressalta que desde o início da guerra, “[o colonialismo] francês não renunciou a nenhum radicalismo: nem o do terror, nem o da tortura”.

Calcularam mal: “as repressões, longe de sufocarem as revoltas, estimulam o progresso da consciência nacional”, analisa Fanon. “Se, de fato, minha vida tem o mesmo valor que a do colono, seu olhar não me fulmina mais, sua voz não mais me petrifica. Sua presença não me perturba mais. Na prática, sou eu quem o incomoda. Não só sua presença não me importuna mais, como já estou lhe preparando tantas emboscadas que logo ele não terá outra opção senão fugir”. Assim, a libertação psíquica induz à perda do medo, ao mergulho no combate pela independência.A violência da palavra
Em que condições esse combate vai se desenrolar? Em Os condenados da terra postula que “a descolonização é sempre um fenômeno violento”.
Isso por que violência chama violência e quando o opressor invade a menor parcela que seja de um território, é difícil manter-se aí pacificamente: “Cada estátua, a de Faidherbe ou Lyautey, de Bugeaud ou do Sargento Blandan, todos esses conquistadores que pousaram sobre o solo colonial não param de significar uma única coisa: ‘Estamos aqui pela força das baionetas...’”. É evidente a resposta dos oprimidos, considerada estrondosa quando se trata de outros países sob outros comandos. Fanon justifica a violência? Não em todos os movimentos:
“Condenamos, com o coração aflito, esses irmãos que são jogados à ação com a brutalidade quase psicológica que faz nascer e mantém uma opressão secular”. Não obstante, Fanon nos convida à uma compreensão da gênese da violência e da única alternativa deixada aos oprimidos para sua libertação. Sua descrição da “compartimentação” da sociedade colonial, com sua “linha de partilha” e sua “fronteira indicada pelos quartéis e postos de polícia”, nos remete, aliás, ao nosso universo militarizado que, bem longe de “pacificar”, produz ele mesmo o “radicalismo” que pretende combater.

A perspicácia de Fanon vale também para sua análise sobre o futuro de um país descolonizado quando uma “burguesia nacional (in)autêntica” sobe ao poder e não fornece ao povo “capital intelectual e técnico”.
Baseando-se no exemplo da América Latina, ele previne sobre o risco de transformação de um país em “território de prazeres a serviço da burguesia ocidental”. Disseca a propensão dessa burguesia “cinicamente burguesa” de romper a unidade nacional jogando com o “regionalismo”. E conclui: “Essa luta implacável à qual se entregam as etnias e tribos, essa preocupação agressiva de ocupar os postos livres pela partida do estrangeiro vão, igualmente, gerar competições religiosas.
Assistiremos a confrontação entre as duas grandes religiões reveladas:
o islamismo e o catolicismo”. Fanon alerta até para o perigo de um partido único, que utiliza o passado para “adormecer” o povo, “mandá- lo lembrar da época colonial e medir o imenso caminho percorrido”.
Quantos países africanos nos vêm à cabeça?

Em reação à colonização, segundo ele, não se deve clamar por uma cultura negra como único horizonte. Se houve “obrigação histórica” para “os homens de cultura africana ‘racializar’ suas reivindicações, de falar antes em cultura africana que em cultura nacional”, por outro lado isso “vai conduzi-los a um beco sem saída”. Suas crenças foram lançadas desde sua primeira obra numa fórmula magnífica sobre a qual os adeptos do comunitarismo poderiam refletir: “Não quero cantar meu passado às custas do meu presente e futuro”. Tal afirmação, no entanto, não se fecha a uma reflexão sobre a história do colonialismo, a qual, como ele lembrava em 1952, se apoiou sobre a história da Europa. O colonialismo baseou-se em “valores” que precisam ser repensados: “Se é em nome da inteligência e da filosofia que proclamamos a igualdade dos homens, é também em seu nome que decidimos exterminá-los”.

Em 1961, a condenação de Fanon se amplificaria com uma veemência radical: “Abandonemos essa Europa que não para de falar no homem, ao mesmo tempo que o massacra onde quer que o encontre, em todos os cantos de suas ruas limpas, em todos os cantos do mundo”. Afrontemos
de uma maneira salutar essa França que, ao mesmo tempo em que se liberava do nazismo e se reconstruía, massacrava Sétif (maio de 1945) ou Madagascar (março de 1947). Essa França que, no fim da batalha, virava as costas aos seus irmãos de combate senegaleses ou marroquinos que estavam na linha de frente. Escutemos essa voz que há mais de quarenta anos martela sua verdade incisiva, que poderia muito bem ainda ser a nossa: “Podemos fazer qualquer coisa hoje em dia sob a condição de não imitar a Europa, sob a condição de não sermos obcecados pelo desejo de alcançá-la. A Europa adquiriu tal velocidade, louca e desordenada, que escapa a todos os outros condutores, a toda razão, que segue numa vertigem assustadora em direção a abismos dos quais é melhor se distanciar rapidamente”.

Fanon sabe a qual Europa se refere, ele que soube homenagear os judeus da Argélia, os franceses daqui ou de lá que abraçaram a causa independentista. O gesto é universal: “Eu, o homem de cor, quero apenas uma coisa: que jamais o instrumento domine o homem. Que cesse para sempre a servidão de homem para homem. Quer dizer, de mim para outro.”

*Anne Mathieu é diretora da revista Aden-Paul Nizan , de Paris.

[1] Peau noire masques blancs, Edições Seuil (Paris), com prefácio de Francis Jeanson, que redigiria também um posfácio para a reedição de 1965. A obra está disponível até hoje na coleção “Points Essais”.

[2] Ele foi seu porta-voz a partir de junho de 1957. Desde 1953, foi médico-chefe do hospital psiquiátrico de Blida-Joinville (Argélia).

[3] Ver o texto do ensaísta Lothar Baier (Agone, n°33, Marselha, abril de 2005).

[4] Paul Nizan, Antoine Bloyé (1933), Grasset, Les Cahiers rouges [Cadernos vermelhos], Paris, 2005.

[5] Jean-Paul Sartre, “orfeu Negro”, prefácio em: Léopold Sedar Senghor, Antologie de la poésie nègre et malgache [Antologia da poesia negra e malgaxe], Presses universitaires de France [imprensas universitárias da França], Paris, 1948.

[6] Alice Cherki, Frantz Fanon, portrait [Frantz Fanon, um re trato],Seuil, 2000, p.46.

[7] Publicado por François Maspero com um prefácio de Sartre; foi proibido desde o lançamento. Fanon, já sabendo que estava condenado pela leucemia, ditou cada página. Recebeu um exemplar do livro assim que foi impresso, três dias antes de morrer num hospital dos Estados Unidos. De acordo com sua vontade, foi enterrado num vilarejo argelino libertado próximo à fronteira com a Tunísia.

[8] Jean-Paul Sartre et la guerre d’Algérie [Jean-Paul Sartre e a guerra da Argélia], Le Monde Diplomatique, novembro de 2004.

[9] Inspirada em uma declaração de Jacques Chirac sobre o “barulho e cheiro” provocados pelos imigrantes.

[10] Publicado por Maspero. Longos trechos do último capítulo foram publicados em Les Temps Modernes [os Tempos Modernos]. A obra foi acusada de atentar contra a segurança do Estado. Hoje, está disponível pela editora Découverte, na coleção “(re)Découverte” [(re) Descorberta]. A introdução, redigida em julho de 1959, não figurava na primeira edição.